domingo, 26 de abril de 2026

Acabo de ler "The Island of Dr Moreau" de H. G. Wells (lido em inglês)


Nome:

The Island of Dr Moreau


Autor:

H. G. Wells


Lembro-me de que li H. G. Wells por influência de G. K. Chesterton. Naquele tempo, li em português. Tal como li G. K. Chesterton em português. Hoje em dia, com um inglês mais pleno, leio H. G. Wells em inglês. É interessante o mundo intelectual. Lemos um intelectual e, com isso, sentimos vontade de ler seus adversários para compreender, pouco a pouco, o contexto da época. Por fim, começamos a gostar dos mais diversos pontos, por mais opostos que eles sejam. Penso nisso da seguinte forma: é como se lessemos "Filosofia da Miséria" (1846) de Pierre-Joseph Proudhon e sentíssemos a necessidade de ler "A Miséria da Filosofia" (1847) de Karl Marx. Por algum acaso, isso nos permite ver que os dois têm bons pontos, embora os dois posicionamentos sejam contrários.


O leitor ou a leitora do Blogspot pode não compreender o que estou dizendo, permita-me contextualizar. É preciso recordar que G.K. Chesterton e H.G. Wells foram intelectuais britânicos contemporâneos; eles eram amigos íntimos e também oponentes ideológicos notáveis no início do século XX. Esse tipo de relação, em nossa era de guerra fria civil, parece ser absurdo ou impossível. Os dois eram muito distintos. Wells será o pai da ficção científica, defensor do socialismo, do ateísmo e do progresso científico. Chesterton, por sua vez, será um tradicionalista cristão, um apologista católico e um defensor da tradição.


Isso me lembra, preciso dizer isso, do ambiente intelectual de que Eric Voegelin fala em Viena. Um ambiente em que os mais distintos pontos e pessoas se encontram, sem querer matar um ao outro no processo. O leitor ou a leitora achará formidável a leitura de "Reflexões Autobiográficas". Já que ali encontrará uma sociedade em transformação. Uma Viena pré-nazista. O termo "guerra fria civil" ainda não existia, mas já podemos marcar o que distingue um mundo intelectual saudável de um mundo intelectual dominado pelas divisões e seitização do debate público. Enquanto o mundo intelectual saudável permite a amizade entre os mais distintos grupos de pessoas, o mundo intelectual seitizado permite apenas a aliança entre membros da mesma seita. Isso leva à falência do debate público. Não há como existir um debate real onde a única questão é a aceitação dogmática da "verdade" da própria seita. O revisamento das crenças se torna impossível, a capacidade de aperfeiçoamento e compreensão da realidade a partir dos múltiplos pontos se torna uma raridade. Aceitar uma verdade, não importando de onde venha, é visto como traição.


Creio que isso me leva a um afastamento para com o debate público brasileiro. Gosto do debate inglês, sobretudo aquele que ocorre nos séculos XIX e XX. Outra coisa que me marca, mais recentemente, é o estudo da economia e política da China, do Vietnã e de Laos. Gosto de compreender diferentes pontos. Isso soa como um crime para certas pessoas. Alguns chegam a pensar que odeio os Estados Unidos, mas o fato de eu ter trazido tantos intelectuais americanos para cá demonstra que não. Algumas pessoas não gostam que eu escreva "americano" em vez de "estadunidense". Lembro-me de ter brincado com isso: "imagina ter que trocar expressões como germano-americano por germano-estadounidense ou nipo-americano por nipo-estadounidense, prefiro poupar minha garganta".


Preciso dizer que a primeira vez que li esse livro, senti uma compatibilidade intelectual insaciável. A Ilha do Doutor Moreau me fazia sentir como um mundo de gente estranha, abandonada, incompreensível para o jugo social. Essa sensação psicológica, embora fugitiva da tonalidade geral da obra, me fez ter um quê de familiaridade e uma empatia. É assim que me senti a vida toda. Lendo o "Inquietante" de Sigmund Freud e uma H. Q. de Frank Miller, desenvolvi a ideia de "subjeto", isto é, uma mistura de "objeto" e "subjetivo". Se o "objeto" é aquilo que não pode ser totalmente manipulado por nós e a realidade objetiva sempre se opõe a nós, o "subjeto" seriam pessoas que não se adequam à normatividade por dadas características. Foi assim que me senti a vida toda.


Não estou dizendo que fui a uma ilha de criaturas híbridas que eram um misto de animais e humanos, tal como Edward Prendick. Só estou dizendo que as minhas características me afastam da grande maioria da humanidade.  Ler ficção é também um exercício de pensar a própria vida a partir de múltiplas narrativas. As narrativas que levam a pessoas estranhas e deslocadas sempre me fazem pensar a minha própria estranheza e o meu próprio deslocamento. Embora o livro também traga a questão da moralidade na vida intelectual, essa questão me espantou imensamente menos que a questão da psicologia das criaturas incompreensíveis e do Edward Prendick que se tornou incompreensível após a sua aventura (ou desventura) na ilha.


Podemos nos tornar estranhos de múltiplos modos, inclusive estudando. Quando fui lendo o debate público americano, por exemplo, pensei nos efeitos nefastos das teorias conspiratórias, da mídia alternativa e da guerra fria civil. Compreendi que o efeito social disso, no imaginário público, é terrível. Isso se coliga tenebrosamente com o efeito das teorias da conspiração na COVID-19. Quantas vidas poderiam ter sido poupadas se a desinformação e as seitas tivessem sido firmemente combatidas? Do mesmo modo, pontos ideológicos que não foram relativizados por causas puramente doutrinárias deveriam ter sido mais questionados. Naquele período, mesmo algumas pessoas queriam voltar ao puro liberalismo clássico, voltado meramente aos direitos individuais, ignorando todas as questões da saúde pública, dos direitos sociais e do bem comum. Era como se parte do debate histórico pudesse ser simplesmente ignorada em nome do purismo ideológico. A pandemia, em si, nunca acabou. A guerra fria civil, a ascensão do populismo, as ondas crescentes de racismo, misoginia, antissemitismo e LGBTfobia são pandemias epistemológicas crescentes. Quem sabe possam ser chamadas de epipandemias. Essas condições me lembram a ascensão do nazismo e do fascismo. Poderia discorrer mais, mas ainda me falta o arcabouço necessário para tal. De qualquer modo, termino o livro com a certeza de que me torno cada vez mais estranho.