sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Necrológio Cadavérico #6 — Groselhas sobre a Solidão

 


Leituras recomendadas:




Se eu morresse hoje...

Creio que só membros muito próximos da minha família sentiriam falta de mim. Não tive uma vida honrada, no máximo o que eu deixaria seriam meia dúzia de escritos e alguns sistemas intelectuais.

Cometi muitos erros. Fiz sexo com muita gente. Namorei muita gente. Achei meus namoros e minhas relações despidas de significado, seja de sentido, seja de importância. Hoje percebo que não vejo nenhum dos meus relacionamentos como saudáveis. A compatibilidade intelectual e sexual sequer existiam em nenhuma das minhas relações. Foram relações pautadas por abismos que se encontravam e se repeliam. Sempre me senti solitário em esses vácuos existenciais que chamei de namoro.

Também fui channer por muito tempo. O resultado foi uma vida de inimigos, de algumas pessoas que querem até mesmo a minha morte, de conspirações e até mesmo crimes que foram cometidos em meu nome. Conheci o lado bom e o lado ruim dessa cultura. Não só o lado extremamente bom, mas também o lado extremamente ruim. Tive ex-namoradas ameaçadas até mesmo de morte, mas o que posso fazer? Mesmo que, posteriormente, eu tivesse que afastá-las, garanti que me odiassem o suficiente para não serem feridas por minha causa.

Se tem algo que aprendi, e aprendi muito bem, é que prefiro que as pessoas me odeiem do que fiquem perto de mim e sofram por minha causa. Trabalhei extremamente bem com isso. Seja no passado, seja recentemente. A cultura channer me ensinou que quem está próximo de mim não é um alívio ou um aconchego, mas um alvo e uma fraqueza. Quando aprendi isso, afastei todos os meus pontos fracos. Se eu tivesse que sofrer, que eu sofresse só.

Se perguntassem hoje:

— Você quer morrer?

Eu diria: 

— Graças a Deus.

Eu não teria nada para me preocupar. É óbvio que sinto orgulho das atuais 39 mil visualizações desse blogspot, além de que, por algum motivo, eu estar sendo lido no mundo todo. Todavia o que vivo na vida é um grande sentimento de que a nada pertenço e misturado com a sensação de que posso cair a qualquer dia. Eu não desejo a vida que levo nem para o meu pior inimigo.

As pessoas não veem o que eu vejo. Quando sistematizei a esochannealogia, por exemplo, sabia que ela era um estado e só pessoas que alcançassem esse estado poderiam, de alguma forma, compreendê-lo. Por exemplo, no jogo do Magolítica, só pessoas metodologicamente frias poderiam extrair boas lições disso. A esochannealogia também depende de tal imaginação sombria.



A esochannealogia (e o jogo Magolítica) exigem o tipo de raciocínio de gente que é capaz de destruir um país com as táticas mais diabólicas possíveis e das formas mais repugnantemente manipulativas. Quanto mais você estuda isso, mais você entende a natureza do mal que há dentro do cerne da esochannealogia de forma ampla e das artes magolíticas de forma específica.

Ao mesmo tempo, como já escrevi no Medium e até mesmo aqui, todo o sistema esochannealógico e arte magolítica contêm fragmentos da alma do seu criador. Essa forma podre, cínica, cinzenta e altamente manipulativa de enxergar o mundo estavam contidas inteiramente na minha alma. Ver o mundo como um jogo torpe estava contido na minha alma. Do mesmo modo, o(s) originário(s) de Q tinham uma forma doentia de ver o mundo.

As pessoas não entendem o que é uma magolítica. Qualquer manifesto deixado por um suicida, qualquer manifesto deixado por alguém que se matou, possui o potencial magolítico dentro da cultura channer. A magolítica, no fim das contas, é uma pedaço da alma de um channer contido num "fragmento intelectual". Algo que foi feito para ser viral e memético, espalhando esse fragmento de alma para outras almas. Isso é uma horcrux esochannealógica. Existem magolíticas anteriores a minha. Q. é um exemplo cabal disso.

O fato de eu ter "nomeado" essa técnica, dando-a dois nomes "magolítica" e "horcrux esochannealógica" não significa que essa técnica passou a "existir" comigo. Ela já existia antes, mas não dentro desse esquema linguístico que a esochannealogia proporciona. O fato de eu ter chamado ela de "magia channer suprema" significa que ela molda a realidade inteira, visto que possui o potencial que remodelar ontologicamente a alma de alguém, tal como Q. (ou Qs) e outros channers fizeram.

As pessoas já me perguntaram:

— O que você acha que foi Q.?

Q. como indivíduo? Q. como horcrux esochannealógico ou magolítica? Q. como teoria da conspiração? Q. como esochanner? Q. como channer? Q. como arma de guerra memética de primeira geração (FGMW)? Q Clearence? Q Anon? Qual Q. as pessoas buscam? Q. é tudo isso e talvez até mais. De fato, até hoje as pessoas não compreendem a relação entre Q. e o esoterismo kekista, visto que o esoterismo kekista esconde as suas técnicas em forma de piada (algo que quem leu Magolítica já percebeu).

Eu vejo Q. mais através das suas técnicas do que como uma "simples" teoria da conspiração. Não me interesso em nada pelas teorias conspiratórias mirabolantes que Q. possui como teoria da conspiração, esse tipo de entretenimento burro eu deixo para jornalistas. Uma coisa é olhar para o conteúdo de crenças de uma seita, outra é olhar para o criador da seita através das suas técnicas. Vocês olham para o Q. através das suas falsas crenças, mas não olham para as técnicas que o Q. usou para criar a seita que criou. Como resultado, atacam apenas o conteúdo, mas deixam aberta a possibilidade de alguém construir uma seita semelhante a do Q. por conhecer as técnicas do Q.

Do mesmo modo, a questão que vem é:

— E se a gente prender um sucessor do Q.?

O Q. enquanto indivíduo importa menos que o Q. enquanto horcrux esochannealógico ou magolítica, visto que em Q. há uma hipótese metapocalíptica tal como há em qualquer channer que se preze e isso é uma condição básica para que algo seja uma magolítica ou uma horcrux esochannealógica. Se prenderem o próximo Q, muito provavelmente outro aparecerá no lugar. É como se perguntar "e se eu prender o filho de Karl Marx, eu parei o socialismo marxista?". 

Outra coisa evidente é: quem garante que o próximo Q. será um ser humano e não uma IA (Inteligência Artificial)? 

Leia isso aqui:


Se as pessoas conseguem criar uma IA baseada no 4chan, por qual razão não conseguiriam criar uma IA baseada no Q. e na Esochannealogia?

Quando pensamos nos maus que a cultura channer causou através do mundo, vimos vários manifestos (horcrux esochannealógicas/magolíticas) aparecendo. Geralmente a pessoa postava o manifesto, se matava ou matava alguém ou algumas pessoas logo após escrevê-lo. Esse manifesto, por qualidade memética (e toda cultura channer é baseada na memética), era mimetizado e mais pessoas faziam o mesmo. Q. aparece com uma magolítica que leva a uma memetização e mimetização em massa, aparecendo em vários países e expandindo-se esochannealogicamente por várias mentes. Há uma quantidade massiva de pessoas que estão no movimento no Q., espalhando-se por aí que nem joio em meio ao trigo e capim em meio a floresta.

Quando eu escrevo isso, não estou colaborando com o Q. enquanto teoria da conspiração. Eu estou analisando o nível meta e a um nível esochannealógico. Isto é, não a um nível de uma simples análise de crenças, mas na análise das técnicas que estão atrás das crenças. Q. como esochanner é infinitamente mais interessante que Q. como teoria da conspiração. A teoria da conspiração envolvendo Q. será ignorada pela maioria das pessoas que estudam Q. no mesmo ponto de discussão que eu escrevo e estudo.

Poderia colocar outros pontos. Deixo claro que não faço parte do Q., nem acredito nas bobagens conspiratórias que ele criou. Porém compreendo que as técnicas de Q. quando estudadas podem ajudar a compreender parte do 5GW (Guerras de Quinta Geração) e o 1GMW (Guerras Meméticas de Primeira Geração). Não creio, porém, que eu queira escrever sobre isso. Ao menos não agora. Me sinto exausto, bebi e li o dia todo. Além disso, é final de ano.

O Necrológio Cadavérico #5 — Filhos sem Pais


Se eu morresse hoje...

Saberia que é muito raro crescer intelectualmente no Brasil. O cerne institucionalista é algo extremamente grave e a direita é majoritariamente anti-institucional e pós-institucional.


Nos últimos tempos, li muito mais do debate americano. Ali pude ver um movimento intelectual real. Com múltiplas e verdadeiras faces singulares. Coisa que quase não encontro aqui. A academia brasileira me parece um show de clichês dos quais não quero fazer parte. Além disso, meus posicionamentos são extremamente escassos. Sinto um sofrimento enorme por estar aqui.


Ao ver pessoas queimando e cortando chinelos, por causa do marketing, além de todo o debate envolvendo o espectro ideológico de chinelos, comecei a pensar que tudo isso era o cúmulo. Esse foi o momento que percebi que esse país não tem salvação e não adianta se importar com absolutamente com o que ocorre aqui. Visto que dar importância para o que ocorre aqui pode terminar em emburrecimento ou em enraivecimento.


Agora, se a natureza política é entediante e emburrecedora, a natureza midiática também o é.  A mídia de direita serve para provar que a esquerda está errada. A mídia de esquerda serve para provar que a direita está errada. Não há qualidade alguma nisso, além do velho fato enfadonho de que existem para tornar fatos e narrativas em máquinas de propaganda. Um esquerdista que ler jornais de esquerda verá o quanto é bom, inteligente e sabido, ao mesmo tempo verá o quanto seus inimigos são maus, burros e tolos. Do mesmo modo, um direitista que ler jornais de direita verá o quanto é bom, inteligente e sabido, ao mesmo tempo que verá o quanto os seus inimigos são maus, burros e tolos. Assim caminhará a guerra fria civil.


Eu não posso mudar a realidade política do meu país. Além disso, a mídia alternativa está cada vez pior. A democracia envolve os votos da maioria. E eu faço parte da minoria da minoria. Não tenho o controle sobre absolutamente nada. Meu voto não influenciaria em nada. A ausência dele não mudaria em nada. Um esquerdista que fala em mutualismo, morrerá na corrente majoritárias da esquerda.  Um direitista que fala em Red Tory, morrerá nas correntes majoritárias da direita.


Se meu voto não vale de nada, mas sim o voto da maioria das pessoas que sequer leem um livro por ano e que não sabem mais do que três linhas de pensamento, o que posso fazer? Nada, absolutamente nada. Caminho como um filho bastardo. Creio que deve ser a mesma situação de vários bastardos desse underground.


Escrever pacientemente em meu campo é melhor do que nada. É até terapêutico.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Retrowave #6

 


Retrowave: uma saga de frases de pessoas ilustres que resolvi colocar em retrowave.



Acabo de ler "The Rise of Populism" de Stephen Bannon e David Frum (lido em inglês)

 



Nome:

The Rise of Populism


Debatedores:

Stephen K. Bannon

David Frum


Intermediador:

Rudyard Griffiths


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX

Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtu.be/3nXt2YXrOL4?si=s4N355iN3YCmZ_V5

Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Li esse livro enquanto ficava jogando vinho seco no sorvete e tomando repetidos banhos gelados por causa do calor. Quando fui para praia, acreditei que daria uma folga a minha cabecinha depressiva, mas, na verdade, mergulhei-me em uma série de reflexões e em uma série de leituras. Acho que um grande problema que tenho é esse... eu nunca paro.


Esse livro é bem impressionante, o debate em si é bem impressionante. Usualmente a mídia pinta uma imagem inculta do Bannon, quando vi esse debate, percebi que ele tinha uma intelectualidade mais vibrante do que eu imaginava. David Frum é um "novo conhecido" do blogspot, visto que analisei um livro dele recentemente.


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Bannon, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/06/acabo-de-ler-devils-bargain-de-joshua.html


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Frum, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/acabo-de-ler-trumpocracy-de-david-frum.html?m=1


Creio que essas duas figuras são extremamente interessantes. Um faz parte do MAGA (Bannon). Outro faz parte do Never Trump (Frum). Podemos dizer que os dois são conservadores, mas vão em linhas bem opostas. Se Bannon crê no futuro do populismo como uma tática boa, Frum crê que o anti-populismo é o melhor caminho.


David Frum ataca o trumpismo e o MAGA várias vezes, colocando múltiplas vezes como um movimento autocrático, cleptocrático e corrupto. Bannon, múltiplas vezes, diz que é claramente um antifascista, que o movimento MAGA não se importa com cor, sexualidade, gênero, mas com cidadania, além de evitar qualquer coligação com o nacionalismo branco.


Os dois tiveram um desempenho intelectual extremamente ímpar nesse debate. Múltiplas vezes vi Frum ser elogioso para com a administração Obama, além de citar uma série de dados sobre os governos de Bush, Obama e Trump comparativamente. Bannon tomou vantagem nas partes em que dizia que o movimento republicano antigo não ganhava voto e nem tração. Frum rebateu citando dados demográficos, coligando a imagem pública antimigração com a perda de votos futuros graças as políticas de Trump.


Menção especial: Jair Messias Bolsonaro foi mencionado por Bannon e Frum. Além disso, outros presidentes de ligação ao conservadorismo populista foram mencionados.


Creio que muitas pessoas, em todo o Brasil, não sabem as diferenças entre as linhas conservadoras nos Estados Unidos e, por tal razão, acreditam que é tudo a mesma coisa. Quando lemos livros como esses, vemos que nada é tão simples quanto parece. A diferença entre os conservadores são gigantescas.

O Necrológio Cadavérico #4 — Havaianas, Traições e Dinastias

 


Se eu morresse hoje...


Gostaria de pensar que morri em um bom tempo — precisamente por o tempo atual ser estúpido demais. Depois da discussão a respeito de um riff de guitarra ser de esquerda ou de direita, hoje temos a discussão sobre um chinelo ser de esquerda ou de direita, o que leva a pessoas a destruírem chinelos... por esses chinelos serem supostamente comunistas. O que é uma extravagância estética, dignamente kitsch, para representar os tempos modernos.


Houve um momento que precedeu tudo isso. Anteriormente falávamos da politização das massas. Graças a internet, todo mundo discute política. É evidente que nosso discutidor médio não é um leitor de Karl Marx ou Eric Voegelin, tampouco um articulador de Lênin ou um conhecedor da obra de Russell Kirk. Em vez disso, o debatedor médio discute séries da Netflix como se essas fossem o Capital de Karl Marx ou vídeos de youtubers como se esses fossem a Mentalidade Conservadora de Russell Kirk. A pergunta que faço é: vocês que queriam tanto a politização crônica das massas estão contentes agora?


No geral, o debate intelectual se tornou algo mais ou menos assim: pessoas que são contra a "direita" X pessoas que são contra a "esquerda". Essa generalidade, que é bem estranha, já demonstra a total incompreensão sobre o simples fato de que não existe direita ou esquerda, mas direitas e esquerdas. Essa estranha unidade (ou dualismo) desconhece completamente as divisões históricas entre as diversas esquerdas e direitas, além dos distintos centros. Para essas pessoas, o que chega a ser irônico, não há diferente entre um marxista e um social-democrata e nem entre um Blue Tory e um Red Tory.


É por isso que eu digo: se eu morresse hoje, não estaria perdendo um debate intelectual, visto que sequer há um debate intelectual rolando. Aparentemente, pouca gente conhece pouca gente e muita gente desconhece muita gente. Os ódios das seitas vão até o infinito, visto que o fôlego da burrice é eterno.


É curioso, de qualquer modo, a forma que os eventos vêm se sucedido. Enquanto as pessoas de alguns setores da esquerda se questionam quem sucederá o Lula, a questão central de setores da direita é se o bolsonarismo ainda tem fôlego para incendiar o debate público brasileiro e angariar alguma eleição.


Não raro aparece um desses gênios que chega a questionar:


— Você não obedece a liderança do Bolsonaro? Você é um esquerdista por acaso? Você é um traidor?


Eu fico imaginando: será que eu li a Escola Austríaca, os neoconservadores, os conservadores-populistas, Red Tories, neorreacionários, pessimistas, céticos, pragmáticos e até várias e várias correntes da esquerda para simplesmente retirar as minhas calças e ficar de quatro para os mandos e desmandos de um bolsonarismo inculto e iletrado que se arroga como família imperial da direita brasileira? Se for assim, é melhor partir para não ver o fim desse besteirol ruim que se tornou um hit no cinema da política nacional.


Essa é uma sensação constante que tenho tido a respeito de tudo: eu não me sinto impressionado com absolutamente nada, muito pelo contrário, acho que estou assistindo "Idiocracia" em looping. Isso em todos os setores da minha vida. Um dos fatos que me levou a ignorar muito do conteúdo da política nacional e regional foi isso: a necessidade de me sentir longe de tudo isso.


Pensar na morte me faz ver, inúmeras vezes, de que isso não seria tão ruim. Não estou dizendo que vou me matar, estou dizendo que não estaria perdendo absolutamente nada.

Recomendações Cadavéricas #3 — Second Thought

 


Recomendações Cadavéricas: uma série de postagens de recomendações do escritor do blogspot Cadáver Minimal.


https://youtube.com/@secondthought?si=lVgyzpPwcZdl-1fw


Gosto do Second Thought. É um dos canais marxistas que me surpreendem pela qualidade do seu conteúdo. Também gosto da forma que o apresentador fala e como ele se comporta durante os vídeos. Creio que ele é um dos melhores para se compreender uma perspectiva marxista interna dentro dos Estados Unidos.


Se os leitores desse blogspot gostam de verem múltiplas formas diferentes de ver o mundo, creio que gostaram de adicionar o Second Thought na lista de canais para se assistir.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Necrológio Cadavérico #3 — Burrice e Tédio


Se eu morresse hoje...

Lembraria que estou sempre lendo alguma coisa. Os leitores desse blogspot sabem disso. Atualmente tenho lido o livro "Never Trump" ("Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites"), um livro escrito por Robert P. Saldin e Steven M. Teles. Pode não parecer, mas eu não me acho uma pessoa inteligente. Sei que tenho um interesse elevado por abstrações e por livros, mas sei que muitas pessoas são atraídas pela mais pura inércia.

É estranho, estou sempre vendo algum vídeo mais intelectualizado. Porém creio que isso tem a ver com o gosto. O que realmente me surpreende é o fato de que as pessoas veem muito conteúdo que, na maioria dos casos, poderia ser considerado extremamente duvidoso.

Por exemplo, acho teorias da conspiração extremamente duvidosas. A história da vacina, naquela época, tinha uma falha que considerava central: a hipótese de que as elites queriam uma redução populacional sendo que até hoje em dia os países lutam contra as suas baixas taxas de natalidade. O que me levava a pensar: "e se o plano do mal não seja, tão somente, o lucro com a boa e velha propriedade intelectual que gera uma escassez de um produto, dessa vez essencial, para o mundo?". Creio que isso seria algo muito mais simples.

De qualquer modo, tive uma preguiça extrema de ver conteúdo anti-vacina e também tive uma preguiça extrema de ver conteúdo pró-vacina. Apenas tomei as vacinas e segui o jogo.

Outra coisa que marcou os debates intelectuais recentes foi a questão dos incels e da redpill. Na minha época, recebendo conteúdo redpill traduzido direto da fonte, isto é, do /pol/ do 4chan, posso dizer que a redpill poderia ser tudo e qualquer bobagem. De qualquer modo, esse movimento foi completamente interpretado como sendo um movimento sobre mulheres. Em outras palavras, um movimento que era sobre supremacismo branco, apologia à pedofilia, nazismo, fascismo, ódio contra judeus, ódio contra islâmicos etc, etc, etc... virou um movimento que só prega ódio contra mulheres. Olhando pro lado bom, se eu fosse redpill, eu agradeceria a burrice da esquerda e das feministas por me descontarem tantos e tantos crimes. Chegaria até a ser um alívio ter 99,9% dos erros perdoados.

Lembro-me de que cheguei a larpar de ser incel. O que foi momentaneamente engraçado. Uma hora, eu estava lendo um livro qualquer, indo em uma festa, fumando um baseado, pegando alguém ou até ouvindo música. Em outra, estava lá eu trollando muito com a cultura incel.

Nunca quis me aprofundar no incelismo e na redpill. Achava que aquilo tudo tinha muitas afirmações e poucas fontes. Como sou um rato de biblioteca, sempre li de tudo. Logo criei um ceticismo natural para com tudo. Toda aquela onda de afirmações não me causavam nada além de tédio. Fora isso, eu nunca perderia meu tempo vendo vídeos e mais vídeos sobre o assunto, de modo que simplesmente ignorei 99,9% do conteúdo redpill e anti-redpill, incel e anti-incel.

Se alguém me chegasse e me dissesse:

— A partir de hoje você passará todos os dias falando mal de mulher e discutindo teorias que falam mal de mulher.

Eu responderia:

— Apenas não.

Eu ignoro qualquer monotonia. Sempre ignorei fios e teorias sobre mulheres até mesmo dentro de chans. Grande parte dos usuários de chans apenas dão sage e vão discutir algo mais interessante do que um amontoado de teorias conspiratórias envolvendo o gênero feminino, tal como Sega Saturn e Digimon.

Se também não me atrai por nada disso, tampouco me atrai por teorias da conspiração. Como estou acostumado a ler de tudo, vi que toda teoria intelectual apresentava pontos fracos e fortes. Se teorias intelectualmente sofisticadas apresentam pontos fracos e fortes, é muito difícil imaginar que teorias conspiratórias não soem completamente malucas para pessoas como eu que vivem empilhando livros para ler.

Existem grandes teorias que rechearam minha mente por pouquíssimo tempo. Um exemplo disso a teoria da evolução, o qual tenho por verdadeira. Não porque eu estudei realmente sobre assunto, mas simplesmente porque eu pensei: "pode ser, pra mim tanto faz". Não é como se eu fosse estudar sobre tudo acentuadamente até chegar a uma conclusão factível. Eu apenas vi alguns livros, vi alguns vídeos, vi que era grande parte do consenso moderno e simplesmente lidei com a minha insignificância perante ao assunto.

Considero fascinante, a nivel psicológico e sociológico, a forma com que teorias conspiratórias radicalizam o mundo e prendem pessoas em cubículos, mas, sendo sincero, sinto mais como se eu estivesse olhando para ratos em ratoeiras do que sentindo um dever ético forte perante a isso. De qualquer modo, esses animais, digo, essas pessoas devem ser domesticadas, digo, tratadas... para não saírem fazendo merda por aí e gerando inconveniência e transtorno por onde passam. Todavia isso é um problema da saúde pública e da segurança pública, não um problema meu.

Acho que essa é a reflexão que eu tenho. O fato de eu ser uma pessoa que se sente facilmente entediado me livrou de crer em teorias da conspiração. Às vezes a semelhança com Belphegor não é um erro, mas uma salvaguarda contra a idiotice.