quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #10 — Existência Humana



Se eu morresse hoje...


Eu me perguntaria se ainda sou humano. Não falo em um sentido de eu acreditar literalmente que perdi a humanidade. Falo do questionamento, que se tornou uma constante obsessão psicológica em minha mente, se há algo que me liga à humanidade. Recentemente, vi uma entrevista com o Peter Thiel. Ele foi questionado se a raça humana deve continuar a existir. Naquele momento, ele titubeou.


Não é como se eu estivesse trabalhando ativamente pela extinção da raça humana. Particularmente, eu sequer acho a minha vida valiosa. Se fosse indolor, eu sequer me importaria de morrer agora mesmo. Não é uma ideação suicida, mas eu sinto que já fiz o suficiente. Ao menos, para mim basta o que fiz. Escrevi livros e textos ininteligíveis. Os quais bastam para mim. Sei que pode soar profundamente egoísta dizer isso, mas eu não ligo se IAs se tornarem a espécie suprema.


Lembro-me, quando pequeno, de que eu via as pessoas se entristecerem com os mais diversos fatos e eventos. Todavia eu não conseguia compreendê-los ao todo. Era como se existisse, de alguma maneira, uma barreira impenetrável entre algo que era afetivo-cognitivamente para elas e, simultaneamente, era impossível para mim. 


Sempre penei por causa da minha estranheza. Ora sendo chamado de retardado. Ora sendo chamado de maluco. Ora sofrendo ataques por conta da minha bissexualidade. Ora sendo atacado por conta do autismo. Esse tipo de tratamento e o que vi durante esses meus vinte e nove anos de vida me fazem pensar que talvez seja melhor mesmo que as inteligências artificiais substituam os humanos. Não sei se isso é rum ou, melhor dizendo, se isso pode ser visto como algo ruim. A única coisa que vi na minha vida foi ódio e abandono. Tudo o que construí de bom foi sozinho.


Por algum tempo, eu abria certas redes sociais e via que as pessoas se odiavam sem motivo algum. Ao menos, sem motivo justificável. Por vezes, são os estereótipos raciais e o racismo pseudocientífico que se interpõem e destroem as relações humanas. Por outras, constroem-se razões de gênero e de sexualidade. Todos os dias, levantam-se os mais idiotas motivos para o ciclo de ódio que se repete infinitamente. Uma teoria da conspiração antissemita é montada dia após dia. Uma razão ideológica cresce a cada instante. Justifica-se até a existência dos manicômios mesmo se sabendo que o chamado holocausto ou genocídio brasileiro ocorreu lá.


Fiz um questionamento sobre a necessidade da existência humana. Depois, questionei-me se a existência humana é de fato um bem. Só que havia um outro questionamento, bem mais profundo, escondido na minha cabeça. Percebi que se existisse um evento cataclismático que apagasse a existência humana do planeta, eu não me importaria. Em outras palavras, estava escondido dentro de mim que no fundo sequer me importo com a existência humana. Eu sequer me importo com a minha própria existência. Posso não ser misógino, LGBTfóbico, antissemita, mas tenho certeza de que sou misantropo.


Na imensa maioria das vezes, se alguém é de um lado oposto ao seu, muitas vezes ela te estereotipará e te tratará como um lixo. O humanismo não existe como condição de abertura e diálogo. Ele existe tão só e meramente pela e para a seita. A maioria das pessoas que eu vi nunca leu e nunca pretendeu ler uma linha de pensamento contrário. Muito pelo contrário, veem as figuras opostas como figuras eternamente manipuladoras e malignas em sua guerra eterna. Talvez isso seja a condição da era pós-dialógica. De qualquer modo, eu não me importaria se tudo isso acabasse. Eu não me importaria se o mundo que conhecemos parasse de existir.

Caveira Casual #4 — Em Meio ao Ruído

 


Enquanto eu olhava para meus supostos aliados, pude identificar os mais distintos e irritantes grupos:


- O direitista-histérico-em-perpétua-indignação-moral:

Esse sujeito, que pode atualmente ser de qualquer sexo, aparece dia após dia, em formato de vídeo. Todo dia, ou toda semana, ele ou ela precisa metralhar a sua indignação moral contra algum objeto, sujeito ou acontecimento. Esse modelo é um modelo de sucesso quase que absoluto entre o chamado "direitista influencer". É muito comum em políticos. 


- Liveísta:

A direita liveísta é aquela que aparece todo dia ou toda semana com uma "live" (conteúdo transmitido ao vivo). O objetivo dela é usualmente fazer reação a todo tipo de conteúdo. Esse tipo de conteúdo, diga-se de passagem, é perturbador. Eu não aguento ver. Me parece um misto de falta de imaginação com preguiça. Além disso, esse tipo de formato só é acessível para quem tem tempo livre para ver isso. Algo que muito provavelmente não é a realidade de quem trabalha.


- Vendedor de Cursos:

Essa moda, cada vez mais presente, aparece por todos os cantos. Ao que parece, só a direita americana fornece cursos gratuitos por meio de instituições respeitáveis como a Hillsdale College e a Christendom College. É meio que "se você quer ser de direita, pague para nós". Esse tipo de direitista só existe quando ele é, em si mesmo, uma espécie de celebridade. Porém, sabemos que para ser uma "celebridade de direita" é preciso se tornar um "orgânico de partido" ou um "orgânico de movimento". Se você não consegue sacrificar a sua criticidade, esqueça esse caminho.


- Direita Woke:

Esse aqui é altamente encontrado pela internet. Ele serve para ficar o dia todo enchendo o saco. Ele também possui o estranho costume de ficar o dia todo atacando obras que a esquerda woke fez ou supostamente fez. Ele não percebe que é tão woke quanto a esquerda woke. É o típico direitista que pensa pertencer ao politicamente incorreto, quando na verdade está apenas a exigir que todo mundo siga o seu padrão moral. Outro hábito muito comum na direita woke é passar o dia todo praticando a chamada "LGBTfobia recreativa". A sua compulsão maior é a de acusar tudo o que não gosta de ser LGBT. O mais curioso é quando esse grupo tem que ofender o grupo adversário, na montanha de qualificativos negativos, ele coloca que ser LGBT é um "crime" tão absurdo quanto ser um assassino.


Eu estou aqui, lendo George Grant, anotando todos os principais insights no caderno em inglês e depois passando tudo para o português nesse blogspot. O resto da assim chamada "direita" muito provavelmente nem sabe quem é George Grant. Ou, quem sabe, prefere não dizer para não estragar a "excelente" parceria com a assim chamada "burguesia nacional". É muito feio ler Red Tory. Para piorar, o meu Blogspot também traz vários teóricos de esquerda. Além disso, não tive medo de trazer os Never Trumpers para cá. Ou seja, sou, no mínimo, um dos sujeitos mais suspeitos e questionáveis. Tal como um alienígena estacionando um disco voador na praia em pleno feriadão.


Poderia tentar fazer alguma coisa para ajudar em algo, mas isso seria problemático. Minhas visões particulares cavam um abismo entre mim e o restante da assim chamada direita nacional. Em vez disso, tenho a particular preferência por ficar a ler e a resenhar livros e artigos acadêmicos. Sigo uma política que poderia ser descrita nos seguintes termos: quanto à direita nacional, finjo que ela não existe. O hábito constante de querer


Como quero esquecer a existência da assim chamada direita nacional, volto a escrever sobre filmes. Os escritos anteriores dessa série (Caveira Casual) abordaram filmes; quero voltar a escrever sobre isso. O último filme a que assisti é outro Found Footage. É o Grave Encounters, filme canadense de 2011. Outro filme que encontrei no /tv/ do 4chan. Como podem ver, o homem nasce normie, a misantropia e o 4chan o tornam hipster. Hoje vou fazer algo diferente. Vou explicar o filme colocando-o em paralelo com a assim chamada "direita nacional".


Take 1: Grave Encounters


Grave Encounters, de 2011, é um filme que trabalha com assim chamada "indústria do paranormal". Ele não é apenas um terror de câmera na mão, um hipster found footage, ele é um comentário ácido sobre a encenação da realidade na televisão.


Take 1: Direita Nacional


O paralelo que podíamos ter seria o do típico direitista-histérico-em-perpétua-indignação-moral. O nosso protagonista (ou nossa protagonista) seria o(a) típico(a) charlatão (charlatã) que fica fazendo teatrinho nas redes sociais.


Take 2: Grave Encounters e a Desconstrução do Reality Show


Lance Preston, o nosso protagonista, representa o arquétipo de apresentador carismático e charlatão.


O horror real começa justamente quando a farsa profissional perde o controle. A ironia reside no fato de que Lance Preston e a sua equipe passaram anos fingindo contato com o além e, quando o contato finalmente ocorre, eles não têm ferramentas, nem emocionais, nem técnicas, para lidar com isso.


Take 2: Direita Nacional e a Desconstrução da Direita Woke


Um belo dia, nosso(a) querido(a) direitista woke seria obrigado, por razões de circunstâncias completamente ficcionais, a ser de direita de verdade. Nosso(a) protagonista logo descobriria que LGBTfobia não é argumento e que ele(a) precisaria produzir coisas maiores do que vídeos falando sobre a "hipocrisia da esquerda".


Talvez fosse obrigado(a) a alguma pauta concreta, como faculdades de artes liberais, articular diferentes escolas do pensamento de direita (como ordoliberalismo, Red Tory, paleoconservadorismo), fundação de institutos para geração de políticas públicas de direita pautadas em dados ou qualquer coisa que um(a) direitista de verdade faria. Coisa que nosso(a) protagonista não conseguiria, visto que é um(a) imbecil.


Take 3: Grave Encounters e o Espaço como Antagonista


Diferente de outros filmes de casas assombradas mais tradicionais, o filme Grave Encounters trabalha com a ideia de hospital psiquiátrico mal-assombrado que se comporta como um organismo vivo. Ele também trabalha com todo aquele imaginário psicológico dos manicômios. O espaço trabalha como adversário da seguinte forma: a arquitetura muda, as janelas desaparecem e os corredores se tornam infinitos.


Take 3: a Direita Woke e a Burrice como Antagonista


A direita woke teria que se lidar com uma das piores coisas que podem ocorrer com a direita nacional: uma população e uma mídia que realmente conhecem as múltiplas tradições do pensamento de direita. Coisa que, convenhamos, nunca virá a ocorrer no Brasil, mas como isso é um cenário absurdo e hipotético, dou-me a essa licença poética.


Em vez de entrevistas idiotas com lambedores de saco, o(a) direitista seria confrontado(a) com questões sobre ele(a) ser mais paleoconservador(a) ou neoconservador(a), se ele(a) seguirá uma agenda política mais Red Tory ou mais Blue Tory, se ele(a) assistiu o último vídeo da American Compass ou o último vídeo da Hoover Institution. Quando ele(a) percebesse, estaria levando uma surra argumentativa por não ser um(a) conservador(a), mas mais um(a) imbecil da direita woke.


Como podemos ver, o maior perigo para charlatãos do sobrenatural é que exista realmente um sobrenatural e que eles tenham que se lidar com isso. Como também podemos ver, o maior perigo para a direita charlatã brasileira não é a existência de uma esquerda, nem a existência de uma esquerda altamente letrada, mas sim de uma população e de uma mídia altamente educadas nas múltiplas tradições do pensamento de direita.

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 4)

 


Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant

John Diefenbaker, décimo terceiro primeiro-ministro do Canadá, é a razão desse livro. Por ele, estavam as pessoas do meio rural e das pequenas cidades. Contra ele, estavam as classes literárias, os jornalistas emancipados, a classe dominante e as classes formadoras de opinião.

As classes do establishment diagnosticavam que John era dominado por sua própria ambição, que era um político astuto que punha o poder pessoal em primeiro lugar. George Grant vai na linha oposta, ele diz que John era o homem que punha a existência de um Canadá soberano em primeiro lugar. Além disso, alerta que a única ameaça ao nacionalismo canadense são os Estados Unidos da América e não o Reino Unido. E, além disso, fala que a identidade canadense é a de construir um governo mais estável e mais ordenado que a experiência liberal dos Estados Unidos. George Grant tenta construir uma identidade que unifique canadenses com raízes mais inglesas e francesas. Atentando-se a uma linha comum.

Nesse capítulo introdutório, George Grant diz que lamentar pelo Canadá é lamentar pela tragédia de Diefenbaker. É compreender que o Partido Liberal é o partido das classes dominantes e que as suas políticas inexoravelmente levam ao desaparecimento do Canadá. A agenda de Diefenbaker era a agenda da sobrevivência do Canadá. A agenda das classes dominantes é a agenda da cultura hegemônica do império americano.


Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 3)

 



Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant

Autor dessa introdução:
Peter C. Emberley

O assunto central dessa introdução é a identidade canadense em contraste com as forças continentalistas homogeneizantes. Um dos maiores exemplos dela é o NAFTA (The North American Free Trade Agreement). Esse acordo, em específico, gera uma massiva e continental reestruturação econômica. Além de levantar o questionamento a respeito das poderosas forças da globalização com o recrudescimento da economia local.

Só que, como bem podemos ver em outras partes do livro, isso não é meramente uma questão econômica. A questão do destino também aparece. Qual a interpretação que fazemos a respeito de nós mesmos? Como achamos significado em nossas vidas? Isso precede os nossos esforços individuais? Peter aponta que para George Grant existe algo que é primariamente nosso. Temos mitos fundadores, símbolos políticos e experiências próprias. Nosso senso de localidade e de pertencimento a um local e a uma cultura não é só simples questão de espaço e tempo, mas sim de uma conectividade psicológica entre territorialidade e historicidade. Algo que é sociologicamente construído.

Os autores construirão o significado de um termo, o qual dão o nome de "owingness". Termo esse que se correlaciona a uma dívida social, moral e existencial. Essa dívida gera uma responsabilidade pela comunidade, pela nação e o reconhecimento de adequadas práticas culturais. É o reconhecimento de que existe algo que está além da vontade humana individual.

Estabelece-se um contraste entre os Estados Unidos da América e o Canadá. Os Estados Unidos são formados pela primazia do individual, pela valorização das habilidades técnicas, por uma visão de um calvinismo reformado que defende uma soberania e criatividade da vontade divina na história como paradigma para a iniciativa humana, o que levaria a uma autoiniciativa empresarial. Para Grant, o Canadá é mais ordenado, mais razoável, mais cuidadoso, menos violento e menos entusiasmado com sonhos aventureiros.

Toda questão desse capítulo introdutório levantará o questionamento do ser individual e do ser enquanto eu-plural. Isto é, o ser enquanto figura única e o ser enquanto identidade nacional. A identidade nacional passará por instituições, programas, leis, comportamentos, diversões e autoentendimentos que lhe são característicos. Tudo fundamentalmente ecoa essa lógica. Acontece que o espírito tecnológico da modernidade carrega um espírito que é próprio. É o espírito da dominação sobre a natureza, da política imperial, da burocracia administrativa, do discurso público da eficiência, da sociologia do ajustamento e do equilíbrio. O progresso tecnológico altera o espírito humano, estabelecendo novos mecanismos de controle. Ele é a supressão das diferenças locais, das lealdades particulares e das resistências crediveis. Ele é formado por técnicos e administradores das elites continentalistas dominantes que sustentam discursos oficiais da instrumentalidade e da eficiência. Isso gera, por sua vez, uma tirania universalizadora que só se processa através da homogeneização da eficiência tecnológica.

O que acontece com a pluralidade, com a dignidade e com os propósitos mais altos de cada nação? O Canadá passa radicalmente por essa questão por estar ao lado do grande poder imperial dos Estados Unidos da América. A particularidade local se confronta com o moderno e universal Estado homogêneo. 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 2)

 


Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant


No começo da sua nota introdutória, George Grant fala sobre o estado dos Estados Unidos:
- Conflitos raciais;
- A expansão e decadência das cidades;
- A crescente influência militar na vida constitucional;
- A diferença geracional;
- Os efeitos de um século de espoliação ambiental.

Grant falará de como o Canadá é como um irmão menor que se beneficia do irmão mais velho, sem ser um igual. Ou como o Canadá é como um filho pequeno que se regozija com os bens que o pai traz, mas sem saber de onde vem o dinheiro. De todo modo, alerta para a independência meramente formal e o nacionalismo que surge apenas formalmente. Nenhum desses processos, todavia, carrega a completude de uma verdadeira independência ou de um verdadeiro nacionalismo. Muito pelo contrário, o Canadá ainda era ameaçado pelo processo de homogeneização e universalização que o império americano propunha. Em meio a isso, corporações americanas impunham seus tentáculos por todo o Canadá e a linguagem e o continente compartilhado levavam a um processo de assimilação. 

Havia, contudo, uma diferença: o individualismo do sonho capitalista americano se contrapunha ao forte senso de bem comum e ordem pública canadense. Essa distinção entre bem comum e capitalismo individualista era o ponto de divergência central.

O nacionalismo conservador canadense era baseado na tradição inglesa, num sonho britânico de Canadá. Ele era um romanticismo de um sonho originalmente projetado na Inglaterra. Os Estados Unidos e também a Inglaterra já tinham passado por Locke e Adam Smith, estavam indo para Keynes, Moore e Forster. As elites canadenses, como de costume, queriam o mesmo. O que Grant via nisso era a fisionomia tecnológica de Moloch, seja na guerra, seja na paz. 

Nesse período, as elites eram tecnologicamente progressistas e tinham um senso de autoconfiança. Em meio a essa autoconfiança, a tecnocracia crescia em duas formas: a de destruição planetária e a de tirania planetária. Esse era o paradoxo ou os dois lados da mesma moeda da era da razão das massas. De qualquer modo, Grant alerta de que foi muito pessimista em seu livro.

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 1)

 


Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant

Autor do prefácio:
Andrew Potter

George Grant alertava que as classes dominantes canadenses buscavam livros fora do país, geralmente nos Estados Unidos, como autoridade final na condução da política e da cultura. A elite canadense tem uma orientação continentalista, voltando-se a aquilo que acreditaram ser o império ocidental. Em um tempo, valiam-se do império inglês. Em outro, valiam-se do império americano. Em outras palavras, são uma elite alienada em relação ao próprio país. O leitor, conhecendo as elites brasileiras, pode chegar a uma conclusão razoavelmente semelhante acerca das elites brasileiras.

George Grant era cético para com a modernidade. Ele via a modernidade e a modernização por extensão lógica, como um processo de apagamento. Isto é, havia o modelo universal e homogêneo e as culturas locais que deveriam ser apagadas para que esse modelo fosse implementado. O Canadá, por sua vez, era uma cultura local situada ao lado do coração mais potente da modernidade: os Estados Unidos da América. Os canadenses acreditavam piamente na modernização e que o Canadá necessitava desse processo. A aceitação desse processo poderia levar ao apagamento da identidade canadense. 

O consenso das ciências sociais, nos anos 60 e nos anos 70, era que a tecnologia era uma força universalmente homogenizante. O que levava à conclusão de que todas as culturas particulares não deveriam existir ou deixariam de existir diante desse processo uniformizador. O império americano acreditava que a vontade humana é radicalmente livre para alterar o mundo e o pensamento liberal levava todos os valores para a esfera privada.

Para Grant, uma sociedade conservadora era baseada na hierarquia, deferência, tradição e moralidade pública. O conservadorismo canadense era pré-lockeano. Era um conservadorismo baseado em Richard Hooker (1554-1600). Hooker foi um teólogo, um humanista cristão e estudioso das obras de São Tomás de Aquino. Ele acreditava na conexão íntima entre o Estado e a Igreja. Esse tipo de visão marcou Grant em sua forma de ver o mundo.

O conservadorismo canadense, naquela época, poderia ser descrito como portador das seguintes características:
- Senso de comunidade;
- Ordem pública;
- Autorrestrição;
- Lealdade ao Estado.

O lema era: "paz, ordem e bom governo". Havia a crença de um Estado centralizado para promover o desenvolvimento político e econômico. Adicionando-se que a liberdade individual deveria ser restrita em nome do bem comum. A sociedade era encarada como um organismo em que cada parte era responsável pelo bem-estar do conjunto. A tradição conservadora canadense, naquele ponto, defendia um Estado intervencionista e rejeitava o continentalismo econômico. O continentalismo econômico era a integração com os Estados Unidos da América.

Podemos colocar as seguintes características:
- Comunidade acima do indivíduo;
- Hierarquia;
- Lei e ordem;
- Tradição;
- Mudanças orgânicas.

Se pensarmos bem nessa estrutura, esse conservadorismo é bastante diferente do neoconservadorismo que seria aplicado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Brian Mulroney. Aqui, é preciso estabelecer ao leitor brasileiro quem é Brian Mulroney. Brian Mulroney foi o décimo oitavo primeiro-ministro do Canadá, durante o período de 1984 a 1993, liderando o Partido Conservador Progressista e aplicou uma agenda econômica neoliberal, algo muito semelhante ao neoconservadorismo de Ronald Reagan nos EUA e de Margaret Thatcher no Reino Unido.

Durante muito tempo, a divisão política no Canadá era mais ou menos essa:
1. Partido Conservador: era mais tradicionalista, era mais nacionalista, tendia a usar mais o poder do Estado para promover o bem coletivo;
2. Partido Liberal: era mais favorável ao livre mercado e tinha uma orientação mais continentalista, isto é, mais alinhada à integração econômica com os Estados Unidos da América.

Atualmente o conservadorismo canadense é mais semelhante ao modelo americano. Os conservadores são religiosos que visam o tradicionalismo moral e são a favor de mais livre mercado.

Uma das maiores críticas de George Grant ao liberalismo é o fato de ele ter trocado o bem aristotélico pelo bem lockeano. O bem aristotélico era baseado numa hierarquia, isto é, com subordinação e superordinação. O bem lockeano é criado pela escolha subjetiva dos agentes. Ou seja, o bem liberal é algo que perseguimos de acordo com os nossos valores privados. É a liberdade de escolher o que quiser.

Grant faz uma leitura política de Nietzsche, no sentido de ver no liberalismo uma espécie de niilismo. O contratualismo surge como algumas leis e instituições coercitivas que servem para preservar as liberdades das múltiplas partes. O projeto liberal inteiro pode ser descrito a partir de seu subjetivismo niilista que não adentra um projeto maior. O projeto liberal tem como fundamento a maximização da liberdade humana como bem central. Os valores últimos são criados pela conveniência do momento ou uma noção vaga sobre o que consiste a qualidade da vida. Tudo se torna instrumental e o indivíduo calcula por si mesmo qual valor escolherá no momento. Todavia, nunca é questionado o que é substancialmente verdade.

A sanha liberal pela liberação humana será completada pela tecnologia. Se a tecnologia serve para a liberação humana, ela cumpre a sua função dentro de uma sociedade liberal. Isso criará o liberalismo tecnocrata.

George Grant trabalhará em suas obras a interconexão entre liberalismo, tecnologia e império. A base da interpretação dessa interconexão será bastante semelhante à ideia marxista de superestrutura. Na análise marxista, é a base econômica que determina as condições da superestrutura. Para quem não está acostumado à análise marxista, a superestrutura é o conjunto de instituições do Estado, do direito, de ideologias, de crenças, cultura e de práticas sociais que emergem e se sustentam sobre a infraestrutura econômica. E dentro da análise marxista, a infraestrutura é quem dita como será a superestrutura. A infraestrutura corresponde a um dado nível de desenvolvimento das forças produtivas e a relações de produção específicas.

Andrew Potter termina a sua introdução alertando que George Grant não conseguiu estabelecer uma resposta positiva para criar uma conexão entre a tecnologia do século XX e a justiça do século XX. Isto é, seria necessário um programa positivo que integrasse de forma justa diagnóstico e solução. Grant focou mais no diagnóstico. Além disso, os canadenses não conseguem estruturar uma identidade nacional. O Canadá é visto como yin e os Estados Unidos como yang. Torna-se uma espécie de antinação, um país marcado pela impermanência, mutabilidade, plasticidade e fragilidade. Fala-se de nacionalismo pós-moderno, mas chega-se à conclusão de que o Canadá se tornou algo. Tal como se fosse um Estado comunicacional em que as pessoas continuassem se comunicando sem chegar a alguma conclusão. O Canadá é atualmente um "Estado em progresso" sem identidade estável. Enquanto os americanos se tornam uma sociedade hobbesiana, marcada pela paranoia e pelo isolamento, a sociedade canadense experimenta valores cosmopolitas.

Vale lembrar que, hoje em dia, muitos dos aspectos hobbesianos vêm sido transferidos para a sociedade canadense. Já surgem grupos ao estilo MAGA no Canadá.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Acabo de ler "The Governance of China" de Xi Jinping (Lido em Inglês/Parte 4)

 


Nome:
The Governance of China

Autor:
Xi Jinping


Xi Jinping falará sobre o pensamento de Mao Tsé-Tung. Estabelecendo três princípios maoístas:
1. Procurar a verdade através dos fatos;
2. A linha de massa;
3. Independência.

Segundo Xi Jinping, o socialismo chinês e o socialismo no geral deveriam promover inovações teóricas baseadas na prática. O coração da matéria é a conformância com a realidade, mas a realidade deve ser compreendida contextualmente. Isto é, algo que é verdadeiro para um certo local e para um certo período não será verdadeiro para outro local e outro período. Deve-se compreender as condições da realidade para se procurar a verdade através dos fatos.

A linha de massa é a compreensão de que o povo é o criador da história. O Partido deve servir aos interesses do povo, o Partido deve estar de acordo com as aspirações do próprio povo. O supremo critério de validação é o quanto há de melhoramento na vida do povo. O Partido e o povo devem estar interconectados, visto que é o suporte popular que valida o Partido.

A independência é algo que foi construído pela revolução, pelo desenvolvimento e pela reforma. Ou seja, o caminho que o próprio povo e o próprio Partido percorreram. Compreender o próprio caminho é a independência. A diversidade de condições históricas determina os caminhos de desenvolvimento que os países podem percorrer. É evidente que se pode pegar as conquistas de outros povos para aperfeiçoar o próprio país, mas é preciso compreender a origem e o caminho do país em que se está.

Xi Jinping termina dizendo que as teorias e os sistemas devem ser aperfeiçoados em resposta às condições mutáveis e aos desafios que aparecem. Além de dizer que o Partido deve continuar a promover uma política externa independente baseada na paz. É preciso que o banner da paz, do desenvolvimento, da cooperação e do benefício para todos dê forma à política externa. Além disso, outros povos têm caminhos de desenvolvimento diferentes. Todos devem ter direito a manter seus interesses centrais sem se alienar dos seus princípios.