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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Memória Cadavérica #70 — Operation Mindfuck 2.0



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo que tive no XMPP. Ampliei o texto para explicar melhor o meu pensamento.




Compreendo, mas deixe-me estruturar um pouco melhor.


I. Primeiro Momento


A Operation Mindfuck (OMF) original foi uma campanha descentralizada que utilizou como método pegadinhas (prankismo), hoaxes, desinformação, mitopoese e ativismo digital. Não era pura e simplesmente desinformação pura, mas uma espécie de guerrilha ontológica e lúdica. Também é válido recordar que não foi uma campanha única. Essa foi desenvolvida por Kerry Thornley e Robert Anton Wilson.


O objetivo era semear paranoia cultural, minar a confiança em autoridades, governos e na chamada realidade consensual. Só que existia um outro objetivo: forçar as pessoas questionarem os seus próprios túneis  realidade. Os túneis de realidade seriam os filtros mentais pelos quais as pessoas interpretam o mundo.


A metodologia incluía atribuir calamidades nacionais, assassinatos e conspirações aos chamados "Illuminati" e outras sociedades secretas inventadas ou reais. O que também incluía misturar fatos com absurdos e boatos de forma deliberada. Misturar realidade com ficção é algo evidente para qualquer um que estude engenharia da conspiração, visto que é pressuposto que o preenchimento ficcional deve ser colocado dentro da narrativa.


Essa estratégia, por sua vez, parece ser inspirada na teoria dos jogos. Os discordianos possivelmente acreditavam que a única estratégia imprevisível era a aleatória. O que, em certo sentido, faz sentido: imprevisibilidade, aleatoriedade e absurdidade tornam o cenário ininteligível para adversários. Naquela altura do campeonato, ninguém sabia quem estava participando ou o que de fato estava ocorrendo. Vou tentar ser menos reducionista aqui: essa abordagem também carregava a estética do absurdo, a crítica epistemológica e o prazer lúdico. É um fenômeno multifatorial, não sendo facilmente compreensível.


II. Segundo Momento


A Operation Mindfuck 2.0 (OMF 2.0) se conecta com a propaganda e com a teoria da pós-verdade. Creio que isso se conecta com o livro que li de Robert Guffey (Operation Mindfuck), mas ainda não li o outro autor recomendado (Douglas Rushkoff). Embora não se possa dizer que a Operation Mindfuck 2.0 seja um termo consolidado, pode-se ao menos dizer que é uma metáfora analítica poderosa. Ou quiçá um conjunto de práticas que podem ser descritas heuristicamente como OMF 2.0 (Operation Mindfuck 2.0).


Esse segundo momento se entrelaça com a ascensão das plataformas digitais, da propaganda computacional, da pós-verdade e dos regimes de desinformação. A continuidade mais óbvia disso é a bricolagem entre fato e ficção, a descentralização, a autoria ambígua e o estímulo à paranoia. A descontinuidade está na escala algorítmica, na assimetria do poder, no dano material, na ausência do lúdico e no caráter iniciático da Operation Mindfuck original.


A Operation Mindfuck 2.0 tem um uso político mais deliberado. Uma espécie de "conspiracy engineering" (engenharia de conspiração) ou, mais propriamente, uma espécie de conspiracy warfare ("guerra conspiratória", em português). O que temos aqui é uma apropriação por lógicas de propaganda e guerra informacional. Cabe, todavia, uma distinção terminológica:

A- Conspiracy Engineering (Engenharia da Conspiração): é o design e a produção de narrativas conspiratórias;

B- Conspiracy Warfare (Guerra Conspiratória): é o uso competitivo e estratégico dessas narrativas conspiratórias em redes coordenadas.

(Alternativas terminológicas mais neutras poderiam ser "produção de narrativas conspiratórias" e "operações de informação com narrativas conspiratórias").


Em um cenário de guerra híbrida, informacional e de manipulação da opinião pública, acredito que essa "Operation Mindfuck 2.0" seja "excelente" para operar redes coordenadas de desinformação, manipulação e ataques a adversários. Embora seja importante recordar que o termo guerra híbrida não englobe tão somente a guerra informacional, mas também as dimensões cibernéticas, econômicas, militares e jurídicas, além de operações de influência e operações cognitivas.


III. Utilidade para o esoterismo channer


Considerando que as cabalinhas (organizações esochanners [termo inspirado no little cabal discordiano]) se inspiram em empresas de guerra trabalham com monitoramento de redes sociais, produção de narrativas, operações com perfis falsos, disseminação coordenada, manipulação de tendências, ataques reputacionais e microdirecionamento. Acredito que a formação mais adequada para um esochanner hoje em dia seja uma mistura de:

1- Psicologia;

2- Ciência política;

3- Comunicação;

4- Inteligência de dados;

5- Comportamento humano;

6- Ética e direito;

7- Métodos de pesquisa;

8- OSINT;

9- Análise de redes;

10- Semiótica;

11- Estudos de plataforma;

12- Segurança da informação.


Claro, isso se alguém tivesse tempo, dinheiro e vontade de apostar em tal coisa. Nossa realidade é, em si, muito diferente. O fato disso facilmente entrar no terreno das psyops (operações psicológicas) e das manipulações coordenadas torna isso algo extremamente perigoso.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Acabo de ler "Operation Mindfuck" de Robert Guffrey (lido em inglês)


Livro:

Operation Mindfuck: QAnon and the Cult of Donald Trump (2022)


Autor:

Robert Guffrey


Meses atrás, enquanto escrevia alguns textos, as pessoas me diziam que eu via conexões estranhas entre o discordianismo, o Pizzagate, o Cult of Kek e o QAnon. Hoje em dia, ao ler outros livros, vejo que as linhas traçadas em "minha mente delirante" não são apenas "conclusões aleatórias", mas sim hipóteses ou conclusões de diversos autores renomados. O que é curioso, continuo a ser um total estranho no Brasil. Talvez eu tenha nascido no país errado. Talvez eu esteja investigando algo que muitas pessoas, no Brasil, não tenham especial interesse em pesquisar.


Mais uma vez, um livro sobre QAnon. Mais uma vez, um assunto estranho. Ler livros é algo que faço com deleite, mesmo que o assunto seja considerado bizarro. Ler livros sobre assuntos bizarros ou excêntricos é algo que gera afastamento social. Se tem algo que aprendi em minha estranheza, é deixar os assuntos prediletos para discutir com gringos ou com IAs. Não só leio livros bizarros, eu sou bizarro. Não só leio livros estranhos, eu sou estranho. Não só leio livros excêntricos, eu sou excêntrico. É assim desde o começo da minha vida, por qual razão seria diferente agora?


Como expliquei anteriormente, venho andado ocupado. Tenho feito dois cursos, um no Anhangabaú e outro em Pinheiros. A minha sorte é ter um bilhete especial graças ao meu autismo. Graças a isso, existe uma escassez de conteúdo no Blogspot a qual tento preencher. Ler livros no ônibus, no trem e no metrô é a minha forma de arrumar um jeito de trazer conteúdo para cá. Embora seja engraçado o curioso acaso de eu estar no transporte público lendo sobre uma estranha seita surgida em fóruns anônimos. Espero, para minha sorte, que nunca criem um mecanismo que revele os livros que as pessoas leem no transporte público.


Os leitores do Blogspot já estão cansados de explicações a respeito de como o QAnon surgiu no 4chan e no 8chan. Talvez tenham pouco interesse em ler esse livro, mas eu lhes garanto que vale muito a pena. Em primeiro lugar, Robert é engraçadíssimo e tem um humor muito bem construído e inteligente. A analogia central do autor é o Operation Mindfuck, técnica empregada pelos discordianistas para culpar os "Illuminati" e outras organizações bizarras por cada caso público que pipocasse. QAnon seria uma forma "similar", todavia, o plano central é um golpe de Estado liderado por Donald Trump. 


O autor empregará, durante o livro, uma densa pesquisa histórica sobre teorias da conspiração, análise política e contatos que teve com "crentes" das teorias conspiratórias de Q. Além disso, construirá o argumento central: QAnon não foi um mistério criado organicamente ou uma teoria da conspiração surgida espontaneamente, mas uma operação psicológica altamente engenhada. Ou seja, uma colcha de retalhos de material reciclado de ficção pulp, pranks contraculturais dos anos 1960-70 (como o Operation Mindfuck dos Discordianos de Robert Anton Wilson e Robert Shea, já comentada em textos anteriores), truques sujos à la Nixon e manipulação midiática. O objetivo central de tamanha engenharia técnica seria o de capturar a atenção, lealdade e energia de seguidores vulneráveis, transformando-os em uma base fanática que serve a uma agenda política autoritária/fascista corporativa.


Quanto mais o tempo passa, mais eu vejo a correlação entre fenômenos arquétipo-meméticos e a sua construção lado a lado com teorias da conspiração para a obstrução da sociedade liberal e o desmantelamento da ordem civil.


O livro acerta em cheio em suas doses de humor. De certa maneira, lembrou-me o Rick Wilson. O leitor ou a leitora não conseguirá mensurar há quantidade de vezes em que, no meio do ônibus, do trem ou do metrô, eu dei risadas sinceras. Isso é bom, gosto de livros que marcam a mente e alegram o coração. Esse livro é todo marcado por aquela expressão latina: "Ridendo castigat moris" (rindo-se purificam-se os costumes).