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domingo, 16 de agosto de 2026

Leftypol, Renan Santos e Ameaça de Morte



Esse texto é uma resposta a um amigo, mas como esse Blogspot recebe cerca de quarenta mil visualizações mensais, acredito que seja de interesse público essa mensagem. Disponibilizarei o texto no Medium também. Creio que notarão um  "excesso de texto" a respeito do comportamento do militante médio; esse "excesso de texto" é a chave para a interpretação real. Já que ele aponta para um problema maior e mais cruel. Algo que muitos, a esse ponto, já notaram. Eu não vou dizer diretamente o que é, mas quem observou esse caso friamente sabe que há um padrão quase misterioso, algo que pode parecer muito com o que foi escrito no passado. Esse padrão misterioso me levou a temer o que o militante médio está a realizar em prol de fazer o Renan Santos ter mais presença midiática.


Sua pergunta é muito difícil de responder. Sendo sincero, estou afastado da militância da Missão desde abril/maio. Muitos dos meus amigos também estão afastados. Muita gente que conheci simplesmente caiu fora. Algumas pessoas que conheci querem esquecer que "ainda fazem parte", sumir gradualmente de cada vista e serem esquecidas por todos os outros. Confesso que não acompanho muito de perto o que se passa com essas pessoas. O MBL e o Partido Missão, quanto mais se conhece de perto, têm um gostinho de cidade pequena. Creio que posso aderir a um estilo que soe demasiado "afastado", "frio" ou "monótono". Se assim for, peço-lhe desculpas.


Sempre fui bastante frio e sempre tive uma linha interpretativa bastante própria. Nunca parei de ler autores de esquerda, de centro e de direita ao mesmo tempo; sempre faço isso antes da formulação de qualquer linha de raciocínio. O blogspot Cadáver Minimal é a prova disso. Isso pode soar desagradável para movimentos que possuem uma linha comportamental mais estrita e uma hierarquia mais forte. É graças a isso que sempre me mantenho afastado. Gosto de ler até mesmo quem se encontra no ponto contrário ao meu; isso me possibilita chegar a visões mais complexas e completas.


Tenho recusado falar do MBL e do Partido Missão, sobretudo no Blogspot e no Medium. A razão é simples: não quero ser visto como um estorvo para o Partido Missão/MBL nem quero que o público do Blogspot ou Medium acredite que exista alguma conexão profunda que nunca existiu. Repito mais uma vez: estou afastado desde abril/maio. Venho vivendo um afastamento progressivo. Isso foi algo que foi bom para mim e também para eles. Os outros que se afastaram, não sei como estão. Nem tenho informações suficientes para afirmar coisa alguma. Se o tivesse, também não afirmaria nada. Mas juro-lhes que não tenho contato algum e foi por escolha mútua. Cada um foi para o próprio canto e foi viver a própria vida.


Isso faz parte de uma "lore", de uma temporada que passou. Conheci gente do MBL, até mesmo pessoalmente. Gente que tirou foto com candidatos e até era conhecida por setores amplos da militância. Tem muita gente boa, tal como há gente boa em cada partido e movimento. Já saí para tomar cerveja e até ver um jogo da Copa com alguns. Havia algumas pessoas que eu conhecia de longa data na internet. Também pude ver como muitos se comportavam em determinadas situações e como eles se comportavam conforme acusações de traições eram soltas ou simplesmente quando era mais conveniente todo mundo se afastar de um incômodo.


Sendo sincero, houve gente que foi afastada como se tivesse lepra no mundo antigo. Acredito que, dentro de um movimento, existam figuras que possam ser mais sacrificáveis e outras que não possam ser sacrificadas de nenhuma maneira. De qualquer modo, a maneira ríspida com que isso ocorreu, atingindo até algumas pessoas que nem sabiam muito do que se passava, passou-me a impressão de existir uma diferença entre esotérico e exotérico no nível de informação que cada membro da militância recebia. Compreendo, contudo, que houve uma grande perturbação interna, que em parte justificou comportamentos mais extremos em relação à vigilância e às teias relacionais. De qualquer modo, essa separação entre conhecimento exotérico e esotérico parece ser, dentro do partido e do movimento, algo muito estranho e que não existe para fins meramente estratégicos, mas como uma lógica muito anômala a um partido e um movimento político. Tal estrutura comportamental parece assumir um espaço cada vez maior, lado a lado com o emprego estético cada vez mais excêntrico, gerando a internalização de uma lógica oculta e misteriosa que tem um fim não muito claro. As conexões que se traçam através do tempo parecem não só se somar, mas assombrar. A estrutura comportamental e a estética se somam assombrosamente.


O problema é que para muitos militantes, o mundo do MBL e do Partido Missão, além da revista Valete, era uma parte fundamental da identidade que possuíam e não queriam perdê-la. Isso fez com que muitos, apesar do que se passasse, seguissem comportamentos que, por muitas vezes, acreditei serem tóxicos. Não concordo com legiões que atacam mulheres de forma misógina ou que possuam um comportamento amplamente LGBTfóbico. É bastante evidente o costume de setores da militância de atacarem os adversários dessa forma. Não só adversários, mas ex-integrantes também. Toda crítica é válida, mas deve ser feita de uma forma honrosa. Um dos maiores exemplos é um desafeto do movimento que é chamado de "travequeiro". Mesmo que ele curtisse mulheres trans, o que me parece não ser o caso, qual seria o problema? Uma pessoa adulta ter relacionamento com outra pessoa adulta não é problema de ninguém. Não há provas de adultério. Nem existe qualquer motivo para celebrar violência física contra opositores políticos.


Outra coisa importante, que cabe ressaltar, é que a estrutura do movimento e do partido, em si, parece comportar a defesa só da radicalidade comportamental dos membros mais notórios e não daqueles que são da base. Em outras palavras, caso um membro individual, de pouca importância para o partido e para o movimento, seja pego em ações misóginas ou LGBTfóbicas, ele não gozará de proteção real. A mesma linha de observação cabe à acusação de determinadas figuras sem provas cabíveis por causa de humores momentâneos e conclusões triunfais falíveis. Isso pode ser errôneo e inadequado, além de juridicamente irresponsável. Os militantes menores, apegados à lógica da identidade, deveriam ser mais estratégicos em seus feitos.


O MBL e o Partido Missão são atentamente monitorados por diversos grupos. Os seus membros, até mesmo aqueles considerados menos importantes, são observados por pessoas de diversos partidos e movimentos. Muitos deles podem printar, fazer dossiês, fazer denúncias ou até mesmo tomar ações mais concretas contra esses membros. É por isso que considero que são necessárias mais precaução e mais estratégia e menos ânimo nas tomadas de decisão que os militantes, não importando quem eles sejam, tomam. Além disso, o costume de brigar com todos os outros grupos pode levar a um afastamento do movimento e do partido de outros setores sociais importantes para o seu crescimento.


Lembrem-se de que, na estrutura moderna, seria muito fácil encontrar diversos perfis menores envolvidos em LGBTfobia e misoginia. Esses perfis, embora estejam permanentemente na vacilação, são úteis para amplificação das mensagens do partido e do movimento. Se algum grupo decidisse fazer reportagem em massa, denunciar ao Ministério Público ou simplesmente encadear matérias jornalísticas envolvendo a atuação nociva de setores da militância, o ataque poderia levar a uma boa perda da capacidade de articulação digital em momentos sensíveis. Se diversos perfis caem, a capacidade de amplificar as mensagens do movimento e do partido diminui. Isso deve ser pensado, sobretudo quando temos em mente as regulamentações que aumentam dia após dia. Embora eu seja da linha que defenda um corpo menor de leis para uma aplicação mais funcional delas, ainda é necessário pensar no impacto jurídico de cada ação de acordo com as leis que foram ou serão aprovadas.


Preciso dizer isso em figura de linguagem, mas para bom entendedor, meia palavra basta. Entenda que quando o parquinho pega fogo em nome da revolução burguesa contra a nobreza, apenas as crianças da burguesia serão resgatadas. Tome cuidado, caro plebeu, caso se reúna com essas crianças adinheiradas em suas andanças revolucionárias. A revolução custa muito para quem pode ser sacrificado e menos para quem não pode. O comportamento de um líder é protegido pelo escudo de seus seguidores e da sua estrutura, todavia, o comportamento de um seguidor não apresenta o mesmo escudo nem a mesma estrutura. Dito isso, preste mais atenção nos próprios passos antes de andar no vulcão do mundo; a fumaça é alucinante e as caídas podem ser mortais.


Sinto muito por ter tido que entrar em tantos meandros para só então entrar no que ocorreu com Renan Santos. Eu sou uma daquelas pessoas que estão afastadas ou simplesmente sumiram. Para ser mais exato, estou preferindo me abster de qualquer confronto e me dedicar aos estudos. Já escrevi isso várias vezes, mas sempre acabo por ressaltar esse ponto de novo e de novo. É custoso obter a paz, porém é mais custoso ainda perdê-la logo após obtê-la. Se eu aprendi algo, olhando de perto e de longe, é que essas aventuras eleitorais são radicais e muito custosas, sobretudo para quem está na base.


A ameaça sofrida por Renan Santos: creio que é importante dizer que qualquer ameaça ou tentativa de intimidação deve ser tratada com seriedade, sobretudo pelas vias adequadas. Isso não é controverso nem discutível; é necessário. Por favor, leia esse parágrafo duas ou três vezes se necessário. Leia até cinco vezes, conforme a necessidade. Volte a lê-lo toda vez que for necessário.


Não creio, contudo, que tenha sido correta a exposição generalizada que o Leftypol sofreu em decorrência do comportamento de um único membro. E tenho dúvidas quanto à excepcionalidade desse membro radical em um fórum historicamente pacífico. O pânico midiático tendeu a criar um marketing em torno de um fórum que tem o costume e o longo histórico de ser pacífico, até mesmo pacato. Sou uma pessoa que tende a acreditar que o jornal cria parte do imaginário social, tornando o escrito em uma realidade através de uma repetição. A repetição pode criar familiaridade e a familiaridade pode ser psicologicamente assumida como fato.


Confesso que tive um pouco de desinteresse em estudar e acompanhar o caso, sobretudo por viver um período de recolhimento e de estudo. Além disso, tenho me mantido afastado de qualquer tipo de informação política a respeito do Brasil por motivos de saúde mental.


Uma postagem anônima detalhando a intenção de atentado, apresentando local, data e alegada posse de arma justifica a investigação policial, independentemente da plataforma em que ocorreu. Esse aspecto não é debatível. A generalização a respeito do Leftypol, contudo, não faz sentido em termos de proporcionalidade. No Leftypol, tal como em qualquer chan, as postagens individuais não se vinculam a uma organização como um todo. Até porque não há hierarquia formal, partido ou estrutura de comando. O conteúdo é gerado por usuários anônimos. Logo é impossível presumir que uma postagem individual represente todos os seus usuários.


O que acho extremamente enganoso é que a exposição midiática e política transformou um post isolado em representação coletiva; isso é um padrão recorrente em cobertura de chans e é algo que sempre critiquei. Um caso extremo não pode nem deve virar metonímia do espaço inteiro. Esse julgamento é válido para chans mais à direita e para chans mais à esquerda. Além disso, criar todo um pânico envolvendo assassinos misteriosos em fóruns anônimos em pleno período eleitoral me parece algo perigoso e que deveria ser feito com mais cautela. Esse tipo de mensagem costuma levar mais pessoas perigosas para dentro desses fóruns.


Existe algo no meu estômago. Sinto a necessidade de colocar essa linha de raciocínio aqui. No Brasil, períodos eleitorais costumam apresentar bastante exposição midiática. Nesses períodos, a notícia serve como amplificação de imagem. Isso atrai tanto os partidos quanto quem quer aparecer. Recentemente tivemos um caso em Brasília, onde um grupo planejava um atentado. Quando as notícias explodiram em pleno período eleitoral, isso pode ter levado a um efeito duplo: de um lado, o pânico social; de outro lado, grupos que mimetizam a lógica do caos e querem ver uma chance para sombriamente brilharem. Toda notícia a respeito desse tipo de ação pode levar à amplificação desse fenômeno e isso deveria ser visto com mais cuidado. Não podemos, enquanto sociedade, normalizar tamanho comportamento violento, mesmo que inconscientemente.


Acredito que esse tipo de conteúdo não deve ser reproduzido em massa. Não deve ser utilizado para fins políticos. Não deve levar a múltiplas acusações. Não deve ser levado como prova contra adversários de longa data. Existem tenebrosos efeitos contraproducentes nisso. É evidente que Renan Santos ganhou maior atenção midiática, mas a chuva de ânimos levou a acusações indesejáveis. Além disso, grupos que visam estabelecer pânico social agora possuem uma fórmula atitudinal, seja a fórmula vista no Leftypol, seja a fórmula vista em Brasília. Isso é extremamente indesejável e perigoso. Estamos abrindo territórios hostis e normalizando-os em nosso imaginário social.


É válido lembrar: ameaças explícitas de violência real são contra as regras da maioria desses espaços e costumam ser removidas ou banidas quando detectadas, embora possa se alegar que a moderação de um chan é muitas vezes inconsistente e a natureza anônima dificulte a prevenção. Até onde pude pesquisar, não há registro público de campanhas de violência ou atentados originados do Leftypol como coletivo. Isso é uma realidade extremamente diferente de alguns outros chans que já tiveram vínculos documentados com ataques reais.


Uma coisa, meus caros, é noticiar uma ameaça específica, investigar a sua autoria e eventual capacidade de concretização. Outra, de natureza bastante diferente, é transformar essa mesma ocorrência em uma caracterização abrangente de todo o espaço de discussão. Não estou dizendo que a postagem é, em si, inofensiva. Ela não é. Acontece que não creio, pelo longo histórico do Leftypol, que ele seja uma espécie de hub de radicalização operacional. Isso é, para mim, um marketing político com fins eleitorais movido à falsa equivalência.


A dinâmica de pânico midiático e marketing involuntário é clássica: "fórum de extrema-esquerda planeja assassinato de Renan Santos". Isso serve para criar um imaginário que se autorreforça, atraindo curiosos e novos radicais e, paradoxalmente, solidificando a própria narrativa de vitimização de um lado e de demonização de outro. O jornalismo de impacto, cabe lembrar, frequentemente privilegia o excepcional e o ameaçador sobre o cotidiano discursivo do espaço. O que, mais uma vez, não anula a gravidade da ameaça, todavia, explica a razão de um post isolado ter ganho escala nacional em pouquíssimas horas.


Digo, mais uma vez, que não venho acompanhando o caso de maneira aprofundada. Como já dito anteriormente, tenho me afastado do noticiário político brasileiro. Repito novamente que por motivos de saúde mental, preferi me afastar desse tipo de informação. É por essa razão que não pretendo apresentar como certeza aquilo que não pude verificar pessoalmente.


É importante dizer: acredito que há muito sensacionalismo nas reportagens a respeito de chans. Usualmente os episódios mais extremos são tratados como regra. Isso cria um imaginário social que pode levar, ao contrário do que muitos pensam, a esses ambientes se tornarem desejáveis figuras patologicamente indesejáveis. Termino meu argumento da seguinte forma: acredito que a responsabilidade por uma ameaça específica deve ser investigada, mas a atribuição dessa ameaça a uma coletividade inteira precisa ser demonstrada e não presumida.