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sábado, 8 de agosto de 2026

Penumbrário #2 — Quando o Inverno Cinza Passar

 



Desculpa, moça, mas você está completamente enganada! Está errada! Está torta! Sua percepção é cheia de fagulhas ilusórias de um passado de ampulheta de areia contaminada!


Sabe, ontem, quando você me disse que eu era um sujeito compreensivo. Então, moça, na verdade eu estava tendo insights após insights devido aos efeitos da psilocibina. Em linguagem vulgar, eu não estava sendo compreensivo por causa de um cogumelo mágico. Hoje eu estou em um estado de recuperação neurológica e emocional depois dessa trip e posso ver as coisas com mais clareza. A psicodelia se foi, sobrou a dor do real. Isso também prova, isso também demonstra que sou humano, pateticamente humano.


Não sei como eu pareci pra ti, mas eu via o mundo todo em cores mais vibrantes, em formas geométricas mais distintas; eu via o mundo com cada objeto respirando; eu ouvia as cores e via os sons. Quando eu olhava para ti, também olhava para a distorção do espaço-tempo. Hoje, após a trip, o mundo me parece extremamente frio e cinza.


Atualmente eu só sinto o cansaço mental e físico. A vontade de chorar. A sensação de um grande vazio no meu peito. Além de, é claro, uma crônica dificuldade de concentração.


Desculpa, moça, quando eu te vi, eu já tinha tomado chopp, eu já tinha tomado cachaça com limão, eu já estava no terceiro gin de dez. Eu tinha fumado maconha também. Por algum acaso, encontrei um colega que esteve no ensino médio comigo e a gente comeu cogumelo mágico.


Posso ter passado a impressão errada, mas eu não sou tão compreensivo e mágico quanto você pensa que eu sou. Pra você, eu sou fofo e acolhedor. Isso é mentira. Eu estava doido. Na verdade, eu sou um homem terrivelmente patético e vagabundo. A única coisa que faço na vida é ler livros estranhos que ninguém conhece, ser estudante de teatro, participar de um podcast de saúde mental e jogar videogame. Você não pode amar alguém assim; você precisa amar quem realmente possa te levar pra algum lugar e atualmente o único lugar a que eu posso te levar é a uma ressaca psicodélica de cogumelo.


É sério, eu não estou brincando. Ressaca de cogumelo existe. Essa ressaca não é a dor física do álcool, é a exaustão química, é a sensação de que meus neurônios pediram demissão e foram viajar sem mim. Tudo parece irritantemente cinza demais. Eu não quero que você veja os lados mais negativos e tóxicos da minha personalidade. Se a minha imagem anterior, criada pela ilusão da droga, é infinitamente superior, para que dar o gosto da agonia do dia a dia?


Eu não sei em que ponto, naquele dia, eu era eu. Eu sei que a psilocibina não inventa sentimentos; ela amplifica o que já está no coração. O cogumelo afrouxou as travas do meu ego. Mas, hoje, após tudo, vejo-me tão patético como o Incolor Tsukuru no livro do Haruki Murakami.


Hoje eu sou a valsa de uma química cansada. Cada expressão de exaustão é uma sinfonia de comedown. Cada batida da bateria do meu sistema nervoso é um grito de desespero pedindo por pausa. Espero que você compreenda, espero que você possa esperar até o inverno cinza passar...