sábado, 22 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #56 — O Dia que V. amou uma Mulher

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto feito para um exercício de teatro. Resolvi salvar.


O Dia que V. amou uma Mulher


Nota: escondi o nome das pessoas aqui mencionadas pelo fato de se tratar de um dos meus melhores amigos, a ex-namorada dele e pelo fato de eu mencionar uma das minhas ex-namoradas. O texto também faz referência a um texto que escrevi no passado, mas como escrevi ele em referência ao caso de V. e ao meu caso, quis ressuscitar um pouco do seu estilo.


Na faculdade de filosofia, tive um amigo chamado V. Ele era um cara bacana, cabelo médio, um metro e oitenta e cinco, cor da pele branca, olhos marrons. Seu filósofo predileto era Nietzsche; posteriormente, ele se apaixonou pela fenomenologia de Edmund Husserl. Hoje, pelo que me contou, conecta a fenomenologia com a psicanálise.


Naquele tempo, aproximei-me de G. K. Chesterton, embora eu e V. tivéssemos uma paixão inigualável por Erasmo de Roterdão. Tínhamos, todavia, uma frase predileta de Chesterton: o homem sensato é aquele que tem a tragédia no coração e a sanidade na cabeça. Outro ponto que nos ligava era a música “Essa Noite Não” de Lobão: mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.


O que mais posso dizer sobre o V.? Ele era conhecido por ficar com várias mulheres. Pouco importava o motivo. Parecia uma espécie de esporte. V. ficava com mulheres pelo mesmo motivo que um alcoólatra bebe. De alcoolismo, eu entendo. De mulheres, V. entendia mais.


A quantidade de vezes que me sentei na mesa do bar da faculdade para beber uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou o que quer que seja e V. levou uma mulher diferente foi impressionante, para ser sincero. Outra curiosidade, adorávamos fumar um. A quantidade de vezes que assuntos bizarros poderiam surgir através dessa experiência era impressionante.


Certo dia, V. mudou. Mudou radicalmente. Foi do Império Russo para a União Soviética. Existem certos milagres na vida de um homem que nem Freud explica. É como o raciocínio rodrigueano: existem coisas que um homem não conta nem para um médium depois de morto. O homem é, por sua natureza, incapaz de dizer a razão pela qual ama a mulher que ama. Mesmo que morra e seja inquirido por um médium. O nome daquela mulher era B.


V. sofria com um tipo de amor que eu chamo de “adversativo”. E esse é o pior tipo de amor. Talvez você não saiba ainda o que é um amor adversativo. As chamadas conjunções amorosas adversativas são aquelas que indicam oposição e contraste. Ou seja, elas ligam pessoas de forma coordenativa, em corações que dependem um do outro para fazerem sentido. Isso ocorre de uma forma psicologizada, muitas vezes de forma inconsciente.


V. namorou B. por um tempo, depois disso, separaram-se. Todavia, V. não conseguiu esquecer daquela formosa mulher loira que arrebatou o coração. E é por isso que preciso explicar o que é um amor adversativo. Isso pode ser engraçado, mas um dos melhores textos que escrevi sobre amor, baseou-se na experiência de V. com B. e na minha experiência com uma mulher chamada C.


V. pensava que conseguia gostar de alguém, MAS aquela mulher, a B., lhe aparecia na memória. Em momentos casuais, V. pensava que estava tudo bem e que conseguia imergir em outras tarefas e socializar com outras pessoas, PORÉM a B surgia magicamente em um flashback.


V. tentava experimentar outras bocas, testava outros abraços, CONTUDO buscava em cada boca e em cada abraço a B. que queria esquecer. V. ouvia novas músicas, buscaca novas experiências, TODAVIA toda nova experiência se construía como uma tentativa frustrada de se esquecer da figura de B. que ele ainda amava.


V. enganou cada mulher que ficava, fazendo toda espécie de passos românticos e dizendo as mais belas palavras, ENTRETANTO, V. estava enganando a essa pessoa e sobretudo a si mesmo. No fundo, V. queria criar um amor maior que apaguasse o amor que ainda sentia por outra B.


A cada novo dia V. tentava se reinventar, NO ENTANTO, toda reinvenção era uma mera reforma diante da revolução que foi amar B., aquela que justamente que V. não conseguia esquecer.


V. buscava todo dia uma nova aventura, SENÃO a memória daquele beijo de B. lhe ressoava como um fantasma. NÃO OBSTANTE, todas as mentiras que contava para outras na tentativa de enganar a si mesmo, a verdade irrefutável era a racionalização que se escondia por trás de cada discurso cênico reinventado.


A vida de V. avançava, APESAR DISSO, V. ainda estava descontente com o objeto de afeto que lhe escapava. Novos romances surgiam, AO PASSO QUE aquele amor continuava inapagável. V. já não dizia a verdade, ANTES silenciava a própria voz ou criava para si mesmo uma argumentação falsamente agradável. V. passava a dizer quantas vezes odiava B. e tudo o que B. lhe fez passar, EM TODO CASO contado escondia o amor que era incapaz de negar.


Creio que V. compreendeu, naqueles momentos, aquela honorável descrição chestertoniana: o amor real é aquele que você se ajoelha para se sentir maior. Visto que o amor é um ato de entrega. V. entendia, naquele momento, que amar uma mulher era amar cada traço dela. Seus beijos, suas ofensas. Seus abraços, seus silêncios. Suas ternuras, seus ódios. Seus sorrisos, suas lágrimas. V. compreendia que amar é amar cada ar, cada cena, cada recorte de cinema de um filme de comédia e de tragédia. V. compreendeu, naquele momento, que amor é entrega e que, se não é entrega, não é amor.