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sábado, 24 de outubro de 2026

Acabo de ler "Audience of One" de James Poniewozik (lido em inglês)

 


Nome:

The Audience of One


Autor:

James Poniewozik


Creio que após o primeiro turno das eleições brasileiras, muita gente percebeu isso: a política moderna consiste mais em um espetáculo de influenciadores que tentam, a todo custo, entreter o público do que em respostas políticas concretas aos problemas sociais, infraestruturais ou econômicos. A espetacularização da política não é apenas uma "nova forma de fazer política", mas também uma forma de ocultá-la.


Enquanto o Brasil era assombrado por uma explosão de banheiros trans inexistentes e por uma forte onda de comunismo que nunca existiu, James Poniewozik analisava a carreira de Donald Trump. Os seus insights, embora feitos para analisar os Estados Unidos, também se encaixam como uma luva para explicar a realidade nacional.


Um dos temas centrais das eleições de 2026, aqui no Brasil, é como influenciadores se tornam personagens e personagens se tornam políticos. Aqui entra uma conexão fundamental: James Poniewozik defende em seu livro que a televisão não apenas ajudou Donald Trump a se tornar presidente, mas também moldou a sua personalidade pública, seu estilo político e a maneira como ele exerce o poder. James nos ajuda a entender como os termos "celebridade", "entretenimento" e "política" passam a se confundir.


O espetáculo das redes sociais é pautado por influenciadores e figuras que disputam engajamento e viralização em vez de propostas concretas e debate de ideias. A gente precisa compreender como isso é metodologicamente possível.


— Sete pontos centrais do caso Trump:

1- Trump é um personagem de televisão antes de ser um personagem político:

O personagem público de Donald Trump era o de um bilionário extravagante, de uma celebridade provocadora e, por fim, de um líder combativo.


2- A televisão passou de força unificadora para força fragmentadora:

Conforme a televisão foi se fragmentando, os públicos e os nichos se dividiram, impossibilitando narrativas unificadoras.


3- O reality show ensinou o público a enxergar poder como espetáculo:

A política moderna não é algo que se tenta compreender intelectualmente, mas, antes disso, um espetáculo que se transmite. 


4- A cultura popular normalizou o anti-herói:

Séries, filmes e programas normalizaram anti-heróis no imaginário público. Figuras manipuladoras, agressivas e transgressoras se tornaram as principais referências. A grosseria e a falta de decoro viraram sinais de autenticidade e não defeitos.


5- A cultura da atenção recompensa o conflito e não a reflexão:

O espetáculo não existe para ser ponderado. O espetáculo existe para causar sensações em quem assiste. O espetáculo quer causar medo, indignação, acusações, confrontos, risadas, seja lá o que for. 


6- As redes sociais transformaram a provocação em estratégia permanente:

Com a queda da televisão, o decoro jornalístico deixou de ser um freio. Enquanto Trump soltava uma série de comentários curtos, insultos e declarações controversas, a mídia reagia a tudo deixando o nome de Donald Trump em maior evidência, o que ampliava o seu alcance.


7- A presidência passa a funcionar como reality show:

A política passa a ser uma sequência de episódios, disputas, reviravoltas e demonstrações de força. O expectador quer se sentir emocionado o tempo todo, logo transforme a sua vida em um reality show.


— Uma metodologia de sete passos da política do espetáculo:

1- Criar uma personagem midiática que seja tão ou mais importante que a pessoa real;

2- Adaptar-se a um público consumidor e criar uma narrativa que lhe seja agradável;

3- O central não é apenas governar ou fazer política, mas sim ser um dos personagens centrais que se envolvem em dramas para entreter o eleitor;

4- Agir como um anti-herói grosseiro, manipulador e moralmente ambíguo rende pontos, pois entretém o público, além do público não ver isso como defeito;

5- Entenda que a sua posição não é a de um intelectual explicando alguma coisa, mas sim a de um personagem que deve chamar atenção. Gerar manchetes e provocar adversários são duas possibilidades infinitamente mais importantes do que estar intelectualmente certo;

6- A controvérsia não é um problema, é um método de viralização e amplificação da sua mensagem;

7- É preciso que a gestão do governo e a produção de narrativas midiáticas se tornem indistinguíveis para o expectador.


A Era do Showfare

É interessante como podemos juntar os termos "reality show" e "warfare".  Na qual podemos criar o termo "Showfare" (guerra dos shows).


Nesse novo modo de guerra, as pessoas que mais tiverem incentivos midiáticos em sua atividade política (conflito, emoção, espetáculo, audiência) para aumentarem o seu poder ganham. Saber capturar a atenção é mais importante do que apresentar propostas. A polarização é um produto cultural a ser comercializado. A fronteira entre realidade e entretenimento deve ser psicologicamente quebrada a cada instante.