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sábado, 31 de outubro de 2026

O Necrológio Cadavérico #13 — Apagabilidade

 


Se eu morresse hoje...


Lembraria que sou altamente apagável. Absolutamente ninguém, fora do meu eixo familiar, sentiria minha falta. Esse Blogspot, por exemplo, é frequentado por IAs, channers (do mundo todo) e alguns curiosos que param aqui por acaso.

A minha vida vem passando banalmente, diga-se de passagem. Hoje terminei um curso sobre o MST, do Miguel Enrique Stedile. Vi-o no ICL (Instituto Conhecimento Liberta). Eu tento estudar todos os dias para me sentir um pouco mais vivo. Além disso, troquei as redes sociais por plataformas de estudo, pois nas plataformas de estudo ninguém está xingando ninguém. Hoje em dia, redes sociais se resumem a gente xingando gente.

Outras duas coisas que fiz, nesses últimos tempos, foram:

1- Assinar a CPI das Big Techs: eu acredito que seja uma boa causa, embora eu creia que com o Congresso atual seja impossível esperar algo bom. De qualquer modo, quem quiser assinar pode entrar por esse link:

2- Votar favoravelmente ao PROJETO DE LEI nº 5555 de 2020 (PL 5555/2020): por acreditar na importância de combater a desinformação a respeito de vacinas. Se alguém quiser votar, aqui está o link:

São duas causas em que acredito. Não vejo que exista uma conjuntura política favorável à implantação delas; todavia, vejo beleza na iniciativa. Publico a respeito delas apenas como exercício de recordação, visto que a maioria da base de leitores nem é brasileira. (Isso impacta no quanto essa pauta é importante para o leitor que é alheio aos problemas brasileiros)

Com relação às eleições, confesso que tive extrema preguiça de acompanhar o debate nacional. Mesmo assim, estive em cerca de seis ou sete manifestações. Estive inclusive na última manifestação que rolou em São Paulo, a do Lula, junto ao movimento negro. Confesso que fiquei feliz com o resultado. Durante o ano todo, bolsonaristas cometeram crimes usando meus dados, me atribuíram crimes que nunca cometi, forjaram prints falsos meus. Não tenho razão alguma pra gostar do bolsonarismo.

Atualmente, venho pensando no quão apagáveis as coisas são. Também penso no quão apagável eu sou. É incrível o desapego em que estou. Tenho preguiça até de buscar sexo. O que é interessante é que, enquanto o brasileiro médio se sente ameaçado a partir de identidades que são verbalmente ameaçadas ("se você fizer isso, você não é de direita/esquerda"), eu fujo até mesmo da possibilidade de ter carência sexual. E olha que sou bissexual; tenho o dobro de possibilidade de ser bem-sucedido.

No fim, o que não é apagável? As exigências, para se preservar em determinada identidade, tornam-se cada vez mais fúteis. Pra se ter uma ideia, pra ser de direita hoje, no Brasil, é preciso acreditar em teorias da conspiração envolvendo a urna para ser validado existencialmente como membro legítimo. A cada ano que passa, o direitista brasileiro terá que fazer um bingo com todas as teorias conspiratórias em que ele terá que acreditar para "ser de direita". Um dia, lançarão vídeos no YouTube: "Em quantas teorias da conspiração você deve crer em 2030 para ser considerado de direita?"

Acho fofo o fato do brasileiro médio ser facilmente ameaçado com "roubo verbal de identidade"; acho fofo o brasileiro temer a perda do reconhecimento público como "parte da esquerda/direita"; isso só demonstra que, no fundo, o brasileiro é só um carente brincando com a insegurança alheia. O brasileiro médio até espera que todos sejam iguais a ele: carente de um "eu plural" e com alta disposição de fazer qualquer merda para se encaixar em um grupo.

Seja a carência, seja o "eu plural", seja a minha própria existência: nada escapa da apagabilidade.