quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Estudos Lunáticos #5 — Teorias da Conspiração e Radicalização


 

Nota: esse texto foi produzido com base no curso "Teorias da Conspiração: A realidade em disputa" do Instituto Conhecimento Liberta. É da professora Letícia Cesarino.


4 Pilares da Teoria da Conspiração:

1. Nada é por acaso;

2. Tudo está conectado (não há coincidência);

3. Nada ocorre por acaso (tudo foi planejado);

4. Existe um grupo agindo nas sombras.


Temas correntes:

1. Ansiedade;

2. Crise.


As teorias da conspiração oferecem a possibilidade de solucionar um mistério oculto. Além disso, transferem o teórico da conspiração da margem para o centro. As comunidades de teóricos da conspiração são marcadas por gerar um pertencimento.


A grande maioria das teorias da conspiração que se provaram reais tinham:

1. Militares;

2. Agências de Inteligência.


Muitas vezes, para compreendermos teorias da conspiração precisamos primeiro fazer uma pergunta:

— Como o senso comum apreende problemas?

O trabalho do teórico da conspiração é baseado em arcos narrativos já consolidados no imaginário coletivo, ou seja, a estrutura narrativa precisa ser comum às sociedades em que se coloca a teoria da conspiração. Ao mesmo tempo, tudo deve remeter ao mesmo grupo (estrutura causal).


Aqui temos:

Estrutura Narrativa + Estrutura Causal.

1. A estrutura narrativa deve ser comum ao imaginário coletivo;

2. A estrutura causal deve levar a um mesmo grupo.


Outro ponto central é que a teoria da conspiração deve apresentar simultaneamente uma segurança afetiva e uma segurança epistêmica para pessoas inseguras. A teoria da conspiração serve como uma âncora.


Outro fator interessante é que a internet plataformizada é o que garante maior vitalidade às teorias da conspiração. A internet moderna funciona mais ou menos assim:

Influenciadores criam tendências e usuários comuns seguem essas tendências.


Em inglês, o teórico da conspiração é chamado de seeker. Isto é, ele é, por natureza, um buscador. O algoritmo, contudo, otimiza as informações com base no comportamento do usuário. Isso leva a uma retroalimentação. Por um lado, o teórico da conspiração busca. Por outro lado, o algoritmo o incentiva. A radicalização conspiratória é uma ascendente.


Outros pontos interessantes abordados nesse curso:

1. O papel das bolhas digitais para gerar a ausência de contraponto;

2. O nudging como um fenômeno gerado subliminarmente pelo algoritmo ao recomendar conteúdo conspiratório;

3. A conspiritualidade (espiritualidade pautada em teorias da conspiração).


Atualmente temos uma soma bastante tenebrosa:

Narrativas conspiratórias

+

Políticos

+

Moralidade/Religiosidade

=

Desenvolvimento da guerra conspiratória (conspiracy warfare) moderna.

Esse fenômeno pode ser visto em QAnon.


No Brasil, vimos a construção de uma radicalização por ondas informacionais de teorias da conspiração. Isto é, criou-se uma lente conspiratória baseada em arcos narrativos. Só lembrarmos as teorias que foram apresentadas:

- Voto Impresso;

- Fraude nas urnas eletrônicas;

- Fraude nas eleições;

- Inimigos que foram forjados narrativamente.


Tudo isso foi escalado por políticos, influenciadores e figuras públicas até gerar a tragédia que foi o 8 de janeiro de 2023.

Memória Cadavérica #59 — Entre Estudos e Gameplay

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente escrito para um grupo de amigos no Telegram.


Vocês têm noção do quanto fazer cursos e jogar videogame é mais saudável do que ficar em redes sociais? Sério mesmo, é muito melhor fazer cursos do que perder tempo vendo campanhas de ragebait em redes sociais.


Hoje fiz dois cursos rápidos no ICL (Instituto Conhecimento Liberta). Um era "Teorias da Conspiração: A realidade em disputa" e o outro era "A Economia da Atenção". Fora que ganhei dois novos certificados pra exibir no LinkedIn.


Passei o dia alternando entre notas e gameplay. Alternava entre escrever e jogar Palia. Consegui upar todas as minhas skills para 10.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Acabo de ler "O Mínimo sobre Bigodagem" de Rasta

 



Nome:

O Mínimo Sobre Bigodagem


Autor:

Rasta (João Nogueira da Silva Neto ou João Rasta Nogueira)


Há anos venho acompanhando o trabalho do Rasta. Ele é, para ser mais exato, o apresentador do Brasil Paralelo de quem mais gosto. Ter a possibilidade de finalmente ler o seu livro é, para mim, uma honra. Lembro-me de ter apresentado o programa Rasta News a várias pessoas, incluindo familiares e parentes. O trabalho que ele faz é realmente fascinante e merece maior consideração.


O livro do Rasta trabalha com vários intelectuais extremamente interessantes. Vários deles li enquanto estudava na faculdade de filosofia. Entre eles, Roger Scruton e Eric Voegelin. A linguagem, contudo, é extremamente acessível. O leitor iniciante se sentirá bastante tranquilo.


O livro trabalha com a temática da bigodagem, isto é, do poder sem responsabilidade. Ele tem diversos temas em que fala sobre isso. É um livro leve e recomendável para quem está se introduzindo no meio conservador.


O livro se aproxima do formato do Rasta News, mas de forma literária. Para quem acompanha seja o Rasta News, seja a Produções Productions, vale muitíssimo a pena!

domingo, 23 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #58 — Ontologia de Claustro

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto escrito em fragmentos diferentes. Unifiquei e tentei dar uma linha de raciocínio.


Em certos grupos da internet, ocorre que certas pessoas acham que são prioridade em alguma coisa e que eu aceitarei qualquer coisa vinda delas. As pessoas creem que a presença delas é inexorável, quase que como um fato, uma lei da física. Para elas, participar de dados espaços é um pré-requisito para ter presença, para se construir uma história, para se participar de uma lore. Elas também acreditam, muitas das vezes, que você precisa estar no mesmo lugar que elas para ser ou se sentir especial.


É a ideia de que um determinado grupo é especial que faz surgir essa cultura do vale-tudo em nome da exclusividade. É dela que surgem grupos no Telegram e no Discord que funcionam  como seitas seculares ou como centros do universo. Algo como "se você sair daqui, você não existe". É como se fosse inconscientemente construído esse discurso:

— Vamos criar uma lore compartilhada, memes internos, histórias de brigas e reconciliações, a ponto de que sair daqui seja uma forma de perder um pedaço da sua biografia.


Graças a essa ideia de pertencimento a um dado espaço para ser especial, as pessoas acreditam que podem lhe dizer qualquer coisa. Disso surge uma manipulação: se você está aqui, você sabe o quanto esse lugar é especial e fará de tudo para se manter nesse mesmo espaço. Aí é que está: eu sou o tipo de pessoa que não acha nenhum lugar da internet especial. Se eu olho e vejo uma pessoa irritante em um grupo, simplesmente vou pra outro grupo. É a internet; me viro em qualquer outro grupo que esteja em português, inglês ou espanhol.


É como se as pessoas quisessem que você sofresse uma síndrome de Estocolmo. É como se esperassem toda tolerância ao ruído. É como se esperassem que você simplesmente engolisse gente tóxica e brigas eternas por causa da suposta "lore". Repita comigo: não há obrigação moral alguma de se estar em um local que te adoece só por ele ser considerado grande ou histórico. As pessoas querem, mesmo não tendo consciência disso, gerar uma ilusão da centralidade do espaço.


Parece que o brasileiro tem o costume de ficar em grupos com regras ou pessoas estúpidas apenas por ser incômodo procurar novos grupos ou por sentir que dado lugar é especial, algo como um ponto de networking fantástico em que qualquer coisa é tolerável. Eu reparei muito nisso em grupos do Telegram e do Discord; vi pessoas brigando umas com as outras por meses.  Mas, porra, internet é internet e sempre existem outras opções. Se tem uma coisa que aprendi com o movimento Never Trump, é que bom mesmo é a arte de ir embora e obter paz.


Nunca entendi a razão de ficar em um grupo onde diferentes pessoas trocam ofensas o tempo todo. Tampouco achei algo de especial nisso. O mesmo que vale para grupos de Telegram e Discord também é igualmente válido para grupos do WhatsApp. Eu não vou conviver com gente que simplesmente não quer que eu conviva com elas.


Faço isso em todo tipo de relação.  Vários grupos no Telegram, no WhatsApp e no Discord atuam com mecanismos de "culto digital". Eles criam a ideia de exclusividade e pertencimento para gerar manipulação social. Preciso ser mais direto. Isso é uma ontologia de claustro. Ou seja, é quando um grupo se constrói não apenas como um canal de conversa, mas também como o próprio plano de existência onde o sujeito valida sua relevância. Isso não é necessário para pessoas adultas.

sábado, 22 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #57 — Espero não ter filhos

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: resposta que fiz a um amigo de longa data no Telegram. Informalidade razoavelmente mantida.


Tomara que eu nunca tenha filhos(as). Meu Deus do céu. Eu certamente não seria um bom pai.


Eu fico imaginando a mentalidade de alguém que olha pra mim e diz:

— Esse maluco aí, que passa os dias lendo livros, que bebe sozinho que nem um niilista escrito por Dostoiévski, que é misantropo que só a porra... sim, esse maluco mesmo, que odeia que lhe ocupem o tempo, com qualquer pedido ou coisa que seja, ele deveria casar e ter filhos.


Eu não me caso pois não quero decepcionar ninguém.

Memória Cadavérica #56 — O Dia que V. amou uma Mulher

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto feito para um exercício de teatro. Resolvi salvar.


O Dia que V. amou uma Mulher


Nota: escondi o nome das pessoas aqui mencionadas pelo fato de se tratar de um dos meus melhores amigos, a ex-namorada dele e pelo fato de eu mencionar uma das minhas ex-namoradas. O texto também faz referência a um texto que escrevi no passado, mas como escrevi ele em referência ao caso de V. e ao meu caso, quis ressuscitar um pouco do seu estilo.


Na faculdade de filosofia, tive um amigo chamado V. Ele era um cara bacana, cabelo médio, um metro e oitenta e cinco, cor da pele branca, olhos marrons. Seu filósofo predileto era Nietzsche; posteriormente, ele se apaixonou pela fenomenologia de Edmund Husserl. Hoje, pelo que me contou, conecta a fenomenologia com a psicanálise.


Naquele tempo, aproximei-me de G. K. Chesterton, embora eu e V. tivéssemos uma paixão inigualável por Erasmo de Roterdão. Tínhamos, todavia, uma frase predileta de Chesterton: o homem sensato é aquele que tem a tragédia no coração e a sanidade na cabeça. Outro ponto que nos ligava era a música “Essa Noite Não” de Lobão: mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.


O que mais posso dizer sobre o V.? Ele era conhecido por ficar com várias mulheres. Pouco importava o motivo. Parecia uma espécie de esporte. V. ficava com mulheres pelo mesmo motivo que um alcoólatra bebe. De alcoolismo, eu entendo. De mulheres, V. entendia mais.


A quantidade de vezes que me sentei na mesa do bar da faculdade para beber uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou o que quer que seja e V. levou uma mulher diferente foi impressionante, para ser sincero. Outra curiosidade, adorávamos fumar um. A quantidade de vezes que assuntos bizarros poderiam surgir através dessa experiência era impressionante.


Certo dia, V. mudou. Mudou radicalmente. Foi do Império Russo para a União Soviética. Existem certos milagres na vida de um homem que nem Freud explica. É como o raciocínio rodrigueano: existem coisas que um homem não conta nem para um médium depois de morto. O homem é, por sua natureza, incapaz de dizer a razão pela qual ama a mulher que ama. Mesmo que morra e seja inquirido por um médium. O nome daquela mulher era B.


V. sofria com um tipo de amor que eu chamo de “adversativo”. E esse é o pior tipo de amor. Talvez você não saiba ainda o que é um amor adversativo. As chamadas conjunções amorosas adversativas são aquelas que indicam oposição e contraste. Ou seja, elas ligam pessoas de forma coordenativa, em corações que dependem um do outro para fazerem sentido. Isso ocorre de uma forma psicologizada, muitas vezes de forma inconsciente.


V. namorou B. por um tempo, depois disso, separaram-se. Todavia, V. não conseguiu esquecer daquela formosa mulher loira que arrebatou o coração. E é por isso que preciso explicar o que é um amor adversativo. Isso pode ser engraçado, mas um dos melhores textos que escrevi sobre amor, baseou-se na experiência de V. com B. e na minha experiência com uma mulher chamada C.


V. pensava que conseguia gostar de alguém, MAS aquela mulher, a B., lhe aparecia na memória. Em momentos casuais, V. pensava que estava tudo bem e que conseguia imergir em outras tarefas e socializar com outras pessoas, PORÉM a B surgia magicamente em um flashback.


V. tentava experimentar outras bocas, testava outros abraços, CONTUDO buscava em cada boca e em cada abraço a B. que queria esquecer. V. ouvia novas músicas, buscaca novas experiências, TODAVIA toda nova experiência se construía como uma tentativa frustrada de se esquecer da figura de B. que ele ainda amava.


V. enganou cada mulher que ficava, fazendo toda espécie de passos românticos e dizendo as mais belas palavras, ENTRETANTO, V. estava enganando a essa pessoa e sobretudo a si mesmo. No fundo, V. queria criar um amor maior que apaguasse o amor que ainda sentia por outra B.


A cada novo dia V. tentava se reinventar, NO ENTANTO, toda reinvenção era uma mera reforma diante da revolução que foi amar B., aquela que justamente que V. não conseguia esquecer.


V. buscava todo dia uma nova aventura, SENÃO a memória daquele beijo de B. lhe ressoava como um fantasma. NÃO OBSTANTE, todas as mentiras que contava para outras na tentativa de enganar a si mesmo, a verdade irrefutável era a racionalização que se escondia por trás de cada discurso cênico reinventado.


A vida de V. avançava, APESAR DISSO, V. ainda estava descontente com o objeto de afeto que lhe escapava. Novos romances surgiam, AO PASSO QUE aquele amor continuava inapagável. V. já não dizia a verdade, ANTES silenciava a própria voz ou criava para si mesmo uma argumentação falsamente agradável. V. passava a dizer quantas vezes odiava B. e tudo o que B. lhe fez passar, EM TODO CASO contado escondia o amor que era incapaz de negar.


Creio que V. compreendeu, naqueles momentos, aquela honorável descrição chestertoniana: o amor real é aquele que você se ajoelha para se sentir maior. Visto que o amor é um ato de entrega. V. entendia, naquele momento, que amar uma mulher era amar cada traço dela. Seus beijos, suas ofensas. Seus abraços, seus silêncios. Suas ternuras, seus ódios. Seus sorrisos, suas lágrimas. V. compreendia que amar é amar cada ar, cada cena, cada recorte de cinema de um filme de comédia e de tragédia. V. compreendeu, naquele momento, que amor é entrega e que, se não é entrega, não é amor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Gênesis Nada Tem a Ver com Isso, Imbecil

 


Eu fico a pensar: isso é verdadeiro?


Quando comecei  a fazer teatro... eu comecei a pensar na existência em si. E eu comecei a perguntar sobre a autenticidade. Aprendi que o ensaio é sobre a espontaneidade e a espontaneidade é sobre ser verdadeiro. Atualmente, eu olho pra cada cena e pergunto se isso é verdadeiro. Tudo o que eu faço está sendo ditado por isso. Eu pergunto a verdade de cada cena que fiz. Durante o dia. Durante a tarde. Durante a noite. Quiçá até mesmo dormindo, se eu lembrasse do que eu sonho.


Essa pergunta ("isso é verdadeiro?") tornou-se um crivo constante, um fio condutor da minha consciência. Hoje eu creio que socialmente representamos muito. Muitas vezes fazemos o que não precisamos fazer até mesmo quando não é necessário ou obrigatório fazer. Esse é o peso que acredito que a maioria das pessoas carrega sem nomear: o teatro desnecessário. É como se estivéssemos em um ensaio eterno de um personagem ruim que ninguém pediu.


É interessante que o que mais eu faço, dentro das aulas de teatro, não é o performático no sentido que Judith Butler diria, mas dentro de outro sentido. Para Judith Butler, o performático é a repetição de atos que constroem o sujeito social. Ou seja, é a matriz, é o discurso, é o gênero, é o reconhecimento do outro. É um "fazer que inscreve" no universo a cultura. Nas aulas de teatro, vejo o oposto: existe um ato de rasgar a repetição para desconstruir o sujeito. A arte do ensaio, pelo que tenho notado, envolve dissolver as camadas sociais para encontrar um impulso que vem antes da linguagem. Aquilo que éramos, o ser essencial, antes do reconhecimento do outro.


O que tenho tentado, quando estou sozinho com minha mente agonizante, é entender um estado de presença onde a máscara social cai e o que sobra é um gesto cru e irrepresentável. O "se mágico" de Stanislavski leva a um questionamento: o que eu faria se estivesse nessas circunstâncias? Esse questionamento carrega um "EU", é uma pergunta pessoal e que só você, compreendendo a si mesmo, pode responder. Não é sobre trazer outra pessoa para dentro da cena, mas sim trazer a si mesmo dentro da cena. Não se trata de um comportamento social genérico que é transmitido por uma máscara, mas sim a radicalidade da realidade do eu que se manifesta a cada circunstância que é dada. O "se mágico" pressupõe a radicalidade ontológica de um ser que verdadeiramente se manifesta.


Isso me leva a pensar a respeito de Grotowski. Para Grotowski, o ator não deve interpretar, mas deve se sacrificar através da exposição. O treinamento teatral é uma via negativa, um processo de tirar tudo o que não é essencial. Se, nas aulas de teatro, aprendemos a ser "verdadeiros dentro da cena", a questão teatral que o ator leva, para todos os cantos, é se ele é verdadeiro fora da cena. Grotowski chamará isso de "ato total", esse é o ato de transformar a própria vida em matéria de investigação.


Tenho pensado nisso todos os dias. É uma espécie de obsessão. Desde que, enquanto eu ia pro metrô, me deparei com o seguinte pensamento:

— Mas o SE MÁGICO pressupõe um EU. Ele é um TRAZER A SI MESMO. O "eu" nunca está ausente do sistema. O sistema Stanislavski é pensado a partir da autenticidade.


A radicalidade grotowskiana, que também é tão fantástica quanto a de Stanislavski, envolve uma pergunta: "o que sobra de mim quando eu arranco toda a ficção, toda máscara social, todo o adereço cultural?" 


Para Grotowski, o treinamento do ator era um exercício espiritual, um ascetismo. Para Grotowski, o ator precisa ser santo. Para Grotowski, o ator deve se despir. Esse "se despir" não é para exibir o corpo, mas a alma. Isso casa bastante com o que li há muito tempo atrás. Mesmo sendo agnóstico, mesmo não sendo judeu, esse é um dos meus livros prediletos. Lembro-me que, há muito tempo atrás, li Nilton Bonder. O livro se chama "A Alma Imoral". Nesse livro, é dito que no livro de Gênesis, Adão e Eva colocam a vestimenta da racionalização diante de Deus. No fundo, roupa que estão usando é a roupa da falsidade. Também é dito, na Bíblia, que "Deus é". Ao mesmo tempo em que o ser humano é, em sua natureza, vacilante. Logo o ser humano "está". Essa questão me toca profundamente, mesmo não sendo cristão. Quando eu sei que eu sou de fato eu? Quando estou em um estado? Quando eu sou? Isso lembra o diálogo que aparece em Hamlet de Shakespeare: "ser ou não ser, eis a questão".


Acabo de virar a noite pensando em Stanislavski e Grotowski. O que é extremamente engraçado: a minha mente explodiu em múltiplas ideias que não consigo sequer organizar. Não sinto ter, nesse momento, a capacidade de colocar em palavras a sucessão de sensações tresloucadas que tive do domingo para segunda-feira. Repare nisso: sensações, não pensamentos. O que vinha na minha mente era uma porrada de memórias antigas, mas eu via tudo com várias sensações. Memórias de amores, de perdas, de vitórias, de derrotas. Tudo junto e misturado.


Stanislavski pensava em como trazer a verdade interior para o palco, Grotowski pensava no ser humano nu e verdadeiro diante do outro. Pra Grotowski, o teatro era ato sacro de confronto total. Grotowski via na teatralidade a sacralidade.


Sinto que, durante anos, estive a dançar uma ilusão pornográfica de uma sinfonia lunática que só eu podia ouvir. Ontem, pela primeira vez, eu tive uma revelação tão estranha quanto aquela que Gregory Hill e Kerry Thornley tiveram quando fundaram o discordianismo. Talvez isso seja, como não poderia deixar de ser, efeito de uma mistura não tão saudável entre teatro e filosofia. Tal como se eu casualmente convidasse Dionísio e Apolo para uma festa. Apolo é o deus da ordem, da forma, da razão, da técnica, das palavras organizadas. Dionísio, por sua vez, é o deus do êxtase, do descontrole, do instinto, da sensação que escapa à lógica. Como juntar isso harmonicamente sem entrar em contradição ou criar um produto que seja uma síntese dialética de naturezas tão avessas?


Hoje comecei a ler um livro sobre Stanislavski. Estive lendo compulsivamente. E fiquei percebendo que Stanislavski era completamente perturbado... não falo no sentido de perturbação ruim. Falo em outro sentido. Falo perturbado no sentido de buscar uma progressão diante de uma inquietação. Para ele, a vida teatral era uma questão agônica e contínua. Quanto mais eu lia, mais calafrios eu sentia. A vida dele era uma inquietação que não se aquieta. Stanislavski era um homem em crise permanente que passou a vida inteira corrigindo a si mesmo. Stanislavski reescrevia o próprio sistema o tempo todo. Estava até mesmo disposto a se contradizer para não parar. Ele sabia que a verdade não é um destino, mas um movimento. 


Quanto mais eu penso, mais eu me vejo. Eu me olhei em diferentes cenários. Nesses diferentes cenários, pelos quais eu passei, durante toda a minha vida, eu fiquei a pensar: isso é verdadeiro? Quantas vezes eu disse "eu te amo" para uma pessoa que não mais amava? Quantas vezes eu fingi me importar com um emprego que simplesmente queria largar? Quantas vezes omiti meus sentimentos reais em relação a alguém ou a algo? Não sei por qual razão senti necessidade extrema de escrever esse texto, não sei se ele será compreendido. De qualquer forma, a questão ainda martela na minha cabeça, e eu fico a pensar: "isso é verdadeiro?"