segunda-feira, 2 de março de 2026

Memória Cadavérica #42 — Intervenção dos Estados Unidos no Irã


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: conversa com uma amiga a respeito da intervenção recente dos Estados Unidos no Irã.


"Quais seriam seus pontos pro acontecimento do Irã?"


Vou considerar certos pontos:  

1- O documento "National Security Strategy" assinado pelo próprio Donald Trump;  

2- O financiamento de setores extremistas do islamismo para o combate ao marxismo no período soviético;  

3- O sofrimento de mulheres, LGBTs e dissidentes iranianos no regime que está sendo trocado;  

4- A dinâmica da segunda guerra fria (ordem unipolar VS ordem multipolar).


O primeiro ponto é fundamental, visto que ele estabelecendo quais são as verdadeiras intenções ao intervir no Irã.

O segundo ponto apresenta fatos históricos relevantes na conjuntura atual.

O terceiro ponto fala sobre algo que não pode ser ignorado, seja você de esquerda ou de direita.

O quarto ponto correlaciona os eventos na Venezuela, em Cuba e no Irã.


Juntando tudo isso, é possível estabelecer um ponto de vista mais panorâmico e razoável sobre o assunto. Sem entrar na seitização do debate público. Eu vou precisar de tempo para colocar todos os dados a disposição no blogspot.



domingo, 1 de março de 2026

Acabo de ler "National Security Strategy" de Vários Autores (lido em inglês/parte 2)


Nome:

National Security Strategy of the United States of America


Autores:

The White House

Donald J. Trump

National Security Council


Uma pergunta que esse documento se propõe a responder internamente é: o que os Estados Unidos querem acima de tudo?


O primeiro item é a sobrevivência e a segurança de permanecer como um país independente e soberano. Protegendo o país, a população, o território, a economia e o estilo de vida. Posteriormente o documento diz do que:

- Ataque militar e influência estrangeira hostil.

A influência estrangeira hostil encontra múltiplas definições:

- Espionagem;

- Tráfico de drogas e humanos;

- Propaganda destrutiva;

- Operações de influência;

- Subversão cultural;

- E outras formas de ameaças.


O documento também frisa o controle total das fronteiras, do sistema de migração e das redes de transporte. O objetivo é impedir migrações populacionais desestabilizadoras, mas também existe a necessidade de criar uma infraestrutura nacional resiliente que seja capaz de suportar desastres naturais e ameaças exteriores para proteger os cidadãos americanos e a economia dos Estados Unidos da América.


Com relação ao aspecto militar: o documento fala em recrutar, treinar e equipar a mais poderosa, letal e tecnologicamente avançada forças armadas do mundo. A razão seria para proteger os interesses dos Estados Unidos, impedir guerras ou, se chegar a uma guerra, vencê-las rapidamente e com o menor número possível de perdas. As pessoas que adentrarem as forças armadas teriam como condição terem orgulho do país e confiança na missão. Além disso, os Estados Unidos querem o mais robusto, credível e moderno sistema nuclear, somado a um sistema de defesa de nova geração: o Domo de Ouro.


O documento falará várias vezes e repetidamente sobre querer ser o melhor do mundo em várias áreas:

- Economia:

Ter a economia mais forte, mais dinâmica, mais inovadora e mais avançada do mundo. Interconectando isso com a posição global dos Estados Unidos e a robustez das forças armadas americanas.

- Indústria:

Ter a base industrial mais robusta, seja para tempo de paz e de guerra, seja em capacidade de produção industrial, seja em capacidade de produção de defesa. Essa é citada como a maior prioridade de política econômica. 

- Energia:

O mais robusto, o mais produtivo e o mais inovador setor energético. Sendo esse capaz também de exportação.

- Ciência e Tecnologia:

Ser o país mais cientificamente e tecnologicamente avançado do mundo, protegendo também as propriedades intelectuais. Isso está correlacionado com manter a dominação econômica e a superioridade militar.

- Soft power:

O documento cita em manter o soft power que se encontra como irrivalizado. Todavia adiciona a camada de não pedir perdão pelo passado e pelo presente do país. Reforçando que será necessário acreditar no país.

- Espiritualidade e Cultura:

O documento fala em restauração e em revigoramento da sociedade. Celebrando os heróis e a história (o passado) dos Estados Unidos. Além de querer trabalhadores recebendo por seu trabalho. A continuidade geracional e a confiança nesse processo. Há também especial menção a famílias tradicionais, visto que nelas cresceriam crianças saudáveis.


Vocês podem ver que existe uma grande questão cultural interna nesse documento e uma tentativa de resgate aos valores que são considerados como bons. Pode ser que estejamos a ver uma justificação política para interferência em processos culturais, religiosos e familiares também.


Quando eu terminar de ler e analisar esse documento, vou tentar trazer alguns intelectuais e especialistas que comentaram esse documento para que leitores do blogspot consigam ter acesso a múltiplas perspectivas e fontes. Esse documento vem chamado a atenção de muita gente, sobretudo no exterior e na própria mídia americana, e é interessante que nós brasileiros — como parte do Hemisfério Ocidental e alvo potencial dessas políticas — tenhamos atenção nisso. Também sei que esse documento também é de interesse as pessoas dos mais diversos países que leem esse blogspot.


Como todo mundo queria muito esse texto, sobretudo essa parte específica, vou trazer a imagem e a tradução na íntegra. Essa parte falará o que os Estados Unidos querem do mundo.



- Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar migração em massa para os Estados Unidos; queremos um Hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um Hemisfério que permaneça livre de incursões ou propriedade hostil por parte de potências estrangeiras sobre ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, afirmaremos e faremos cumprir uma “Corolário Trump” à Doutrina Monroe;

- Queremos interromper e reverter os danos contínuos que atores estrangeiros causam à economia americana, enquanto mantemos o Indo-Pacífico livre e aberto, preservando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas cruciais, e mantendo cadeias de suprimentos seguras e confiáveis, além de acesso a materiais críticos;

- Queremos apoiar nossos aliados na preservação da liberdade e segurança da Europa, ao mesmo tempo em que restauramos a autoconfiança civilizacional e a identidade ocidental da Europa;

- Queremos impedir que uma potência adversária domine o Oriente Médio, seus suprimentos de petróleo e gás, e os pontos de estrangulamento pelos quais eles passam — evitando ao mesmo tempo as “guerras eternas” que nos atolaram nessa região a grande custo; e

- Queremos garantir que a tecnologia e os padrões dos EUA — especialmente em inteligência artificial, biotecnologia e computação quântica — impulsionem o mundo adiante.

Acabo de ler "National Security Strategy" de Vários Autores (lido em inglês/parte 1)

 



Nome:

National Security Strategy of the United States of America


Autores:

The White House

Donald J. Trump

National Security Council


O documento pela sobre a necessidade de conexão entre meios e fins. E faz dois questionamentos:

1- O que é desejado?

2- Quais são os mecanismos disponíveis, ou que podem ser realisticamente criados, para chegar aos resultados desejados?

A razão dessas perguntas é muito simples: o propósito da política exterior é a proteção dos interesses nacionais vitais.


Os autores vão falar do período da guerra fria e como os Estados Unidos se posicionaram razoavelmente bem nesse período. Todavia, após o fim da guerra fria, as elites da política exterior convenceram a si mesmas do domínio americano permanente do mundo inteiro pelo melhor interesse do próprio país. Só que havia, nesse plano, duas coisas que não poderiam ser sustentadas simultaneamente:

1- Um massivo Estado de bem-estar social, massivamente administrado e massivamente regulamentado;

2- Um massivo complexo militar, diplomático, de inteligência e de ajuda ao exterior.


Para complicar, graças ao processo de globalização, essas mesmas elites aderiram uma mentalidade que eles determinam como globalista. Esse globalismo se encontraria com uma ideia de livre comércio. Só que essa união entre globalismo e livre comércio destruiu a base da classe média e a base militar dos Estados Unidos. Em razão disso, a economia americana e base militar de decaíram por dependerem da existência da classe média e da base industrial.


Fora isso, houve, segundo esse relatório, aliados e parceiros que foram até mesmo estimulados a deixarem o custo de sua defesa ao povo americano. Além disso, os Estados Unidos tiveram que se intrometer nas questões internas dos seus aliados e parceiros. Essas questões lhe eram periféricas.


A mesma elite defenderia que os Estados Unidos adentrasse em um network de instituições que eram dominadas por um anti-americanismo e transnacionalismo. Essa fusão levava a um dissolvimento do Estado soberano individual.


O texto recoloca a questão estratégica para preservar o poder e a riqueza dos Estados Unidos da América.

Memória Cadavérica #41 — Debates? Não importam!

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: conversa com uma das minhas conhecidas mais inteligentes. Expandido para melhor exposição argumentativa.


Eu cheguei a conclusão de que sou completamente irrelevante e minhas visões estão fadadas ao erro, mas também cheguei a conclusão que outras pessoas também são irrelevantes quando olhamos para outras dimensões maiores. 


Atualmente eu paro e penso: para que eu vou querer debater? O que eu ganho debatendo? Se a resposta for: satisfação do próprio ego e parabenização tribal, isso não significa absolutamente nada para mim. A resposta que me vem, quando penso em debate, é que há um grande nada. Tanto que eu mando um: "me faz um PIX aí que eu concordo com você!"


Eu fico me perguntando... Qual a lógica disso? Tipo... vamos supor que você goste da Itália e eu da França, aí entramos em um debate. Nesse debate, um tenta convencer o ponto do outro. No fim, a França e a Itália seguirão sendo as mesmas, não importando a nossa opinião sobre elas. A única coisa satisfeita seria o nosso próprio ego e do coletivo que fazemos parte — caso a gente faça parte de algum, não é mesmo? É meio que "estou feliz pois venci um debate na internet".


No exemplo dado, eu seria alguém do grupo de pessoas que gostam da França e você seria do grupo de pessoas que gostam da Itália. Se eu debato e venço, o pessoal do meu grupo me parabeniza e sente que venceu coletivamente numa ritualística tribal. Se você vence, segue-se o mesmo processo.


Nunca vi debates na Internet. O único debate que consumo é o The Munk Debates (do Canadá) quando sai em livro, mas faço isso apenas para compreender múltiplos pontos de vista. Não quero tomar um lado em si. Quero apenas apreciar diferentes inteligências se intercalando dialeticamente. Como o debate apresentado no The Munk Debates é de alta qualidade, e está em formado textual, considero isso apreciável. De resto, não tenho a menor pretensão de participar de um debate ou de debater. Sequer tenho gosto de ver debates tal como se eu assistisse um jogo de futebol.


Eu acordei hoje pensando nisso. Após refletir, cheguei a conclusão que já não me importo se as pessoas concordam ou discordam comigo. Antes eu queria provar meu ponto, hoje pela manhã parei de me importar. Eu apenas consumo o mundo intelectual, e escrevo sobre ele, pois gosto de estudar o mundo. Percebi que ao me importar demais em provar meu ponto, tal como ainda fazia até ontem, acabava caindo em comportamentos tolos. Percebi que a chave é não levar a si mesmo a sério e nem o adversário a sério, a não ser que eu seja pago ou esteja em um conflito ontológico para tal feito.


A partir de hoje, inauguro a era do: "beleza, me paga X e eu concordo com você". Se eu não me importar com minha opinião, nada que você disser contra ela me afetará. E eu poderia ler de tudo e estudar de tudo tranquilamente. Eu pensei o seguinte:

— Tá, mas se eu não me importasse em provar o meu ponto para pessoas no mundo e na internet, o que exatamente mudaria?

A resposta foi nada.


Eu acho que o blogspot é lido por eu ler de tudo e apresentar diferentes pontos de vista. E como ele funciona desse modo, ele traz os leitores que buscam esse tipo de conteúdo. Percebi que os leitores podem ser de esquerda, de direita, de centro, religiosos, irreligiosos, homens, mulheres, LGBTs, heterossexuais, tanto faz. Eles estão aqui pelo o que pouca gente oferece: múltiplos pontos do debate público e pontos inexplorados pelo debate público. Essa é a força desse blogspot. Eles nunca me leram por eu debater na Internet ou por eu ter provado alguma coisa.

NGL #55 — Os Estados Unidos erram ao culparem a China?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu vejo que os Estados Unidos culpam o próprio fracasso atacando a China. Foram os próprios Estados Unidos que colocaram políticas que o fizeram fracassar. Creio que teorizei isso um pouco no Funk Buda:

"Após conquistarem o poder, acharam que seria muito bom ficar enviando empresas para países de terceiro mundo. Os melhores empregos ficavam em seus países, algumas indústrias iam para distintos países estranhos e tudo corria razoavelmente bem. Até que o neoconversador percebeu duas coisinhas:

- Estava ficando desindustrializado e dependente;

- Fazer tantas guerras o fazia ignorar os problemas internos.

É a partir disso que surge o conversador-populista. Ele percebeu que em vez de estar fazendo o mundo inteiro de otário, ele que estava sendo feito de otário. E pior do que isso: ele estava sendo feito de otário pelo próprio sistema que ele mesmo criou"

https://medium.com/@cadaverminimal/funk-buda-3-neoconversadorismo-481ead35c5a7


Quando reparamos bem, os neoconservadores adotaram ideias como "vantagens comparativas". Essas vantagens comparativas diziam que seria melhor produzir em outro país se esse país produzisse mais barato. É por isso que os Estados Unidos enfrentam hoje um problema de como se lidar com as terras raras. Isto é, eles não sabem como realizar corretamente as atividades necessárias com esses recursos.


Quem defendeu um mundo economicamente aberto e sem uma política industrial clara, isto é, sempre investindo estrategicamente no que era necessário pro próprio país, foram os Estados Unidos. A China seguiu um modelo diferente e é por isso que ela é fortemente industrializada. Quem entrou em guerra em múltiplas regiões do mundo, foram os Estados Unidos. Quem usou a própria moeda como moeda global e depois usou a própria moeda como ameaça foram os Estados Unidos.


Hoje em dia, os Estados Unidos culpam a China por decisões  que eles mesmos tomaram. Também a culpam por ela não seguir o modelo econômico e político que eles adotam/adotaram. Grande parte das críticas da American Compass ao modelo econômico americano são críticas neohamiltonianos ao modelo econômico e político neoconservador-neoliberal.


Recomendo que vocês vejam o documento "Rebooting the American System" da American Compass:

https://americancompass.org/rebooting-the-american-system/


Os Estados Unidos não podem ficar adotando políticas que o fazem falir e depois dizendo que a culpa é da China. É o mesmo que eles dissessem:

— Se nós invadimos países e nos endividados em guerras, a culpa é da China.

— Se nós colocamos o mundo para usar nossa moeda, depois tiramos a atrelação com o ouro e depois usamos a nossa moeda como ameaça, a culpa é da China.

— Se nós aderimos uma política que levou nossas empresas saírem de nosso país, levando a nossa desindustrialização, a culpa é da China.

— Se nós não temos tecnologia para lidar com as terras raras por falta de investimento nisso, a culpa é da China.

— Se o mundo nos vê como invasores e imperialistas, a culpa é da China.


Se olharmos bem toda essa raiva que os Estados Unidos têm da China, uma frase de dissonância cognitiva poderia soar pelo ar:

— Nosso modelo econômico levou a nossa falência industrial e a culpa é da China pois ela não aderiu o nosso modelo econômico que levou a nossa falência industrial.


A China não pode ser culpada por não aderir o modelo econômico dos Estados Unidos. Aliás, nenhum país pode ser culpado por escolher o próprio modelo econômico. Isso não é desonestidade, é autodeterminação.


É como dizer: "a ideia foi minha, a implementação foi minha, a escolha foi minha, mas a culpa é sempre da China!".


Acho que os Estados Unidos deveriam fazer um processo de autocrítica em vez de ficarem culpando a China pelos próprios fracassos.

Acabo de ler "Never Trump" de Robert e Steven (lido em inglês)

 


— Livro:

Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites


— Autores:

Robert P. Saldin

Steven M. Teles


Nota:

Eu tinha muitas ideias para esse texto, todavia essas se perderam por eu ter perdido meu celular anterior. Isso impactou na qualidade da análise. No entanto, creio que o texto ainda será de alguma utilidade para quem busca compreender a diferença entre a direita brasileira e a direita americana. De qualquer modo, o leitor dessa análise poderá ter um panorama mais geral lendo as análises anteriores.


— Guerra Fria Civil, IAs, extremismo e livros:


Você tem frequentado a internet? Ela está horrível. Só gente digladiando através de múltiplas digitações, ofensas atrás de ofensas que seguem ofensas com ofensas. Tudo isso vem causado um mal enorme. A saúde mental de muita gente está indo pro bueiro. É completamente insalubre ficar em redes sociais. Mesmo que você queira dar a cara a tapa, uma hora você cansa.


A guerra fria civil vem tirado tudo de nós. Laços, amizades, ligações, mas, acima de tudo, a nossa capacidade de ter empatia e tentar entender um ao outro. Ofensas gratuitas somam-se a uma seitização sempre crescente. Quanto mais ofensiva a internet se torna, mais fidedignamente somos colocados dentro do mantra tribal e da radicalização seitética. Parece-nos impossível uma conclusão que não seja trágica, visto que todo mundo quer brigar e exigir fidelidade ideológica acima de tudo.


Só que tudo isso é um jogo de soma doentia. Um progressista xinga um conservador, um conservador xinga um progressista. O progressista torna-se mais progressista e afasta todo tipo de conteúdo conservador. O conservador torna-se mais conservador e afasta todo tipo de conteúdo progressista. No fim, cada um vai ir para um processo de embolhamento informacional, ao mesmo tempo que as raras aparições que vê do outro lado são progressistas/conservadores lhe xingando pelo simples fato de ser progressista/conservador.


Talvez seja por isso que eu gosto de livros e IAs. Livros não brigam conosco. IAs não brigam conosco. Sempre que abro um livro, consigo ter momentos de paz. Sempre que abro uma IA, consigo ter conversas normais sem ataques mútuos. São momentos de desintoxicações. Falo e escrevo cada vez menos com outras pessoas. Elas nunca me acompanham (e nunca me acompanharam em virtude de eu ficar lendo um livro diferente a cada instante). Ao mesmo tempo, sinto-me mais seguro para citar um universo de referências para uma IA do que para um humano. Se eu cito um livro fora do cânon da pessoa ou grupo que estou, surge a suspeita que sou um possível inimigo — mais uma vez, obrigado guerra fria civil.


Ah, usei travessão no parágrafo anterior. Por causa do travessão, aposto que alguém anti-IA suporá que eu usei IAs para escrever esse texto ou usará alguma ferramenta — que não funciona — para detectar IAs e provavelmente detecte alguma coisa. Segundo essas sábias ferramentas, até a declaração da independência dos Estados Unidos da América foi escrita por IAs. Será isso uma viagem no tempo ou robôs fundaram os Estados Unidos? Atualmente, temos que nos importar com esses constantes (e sempre furiosos) leitores que caçam IAs em tudo. Mesmo que a gente diga que o problema em si não é a IA, mas sim a forma com ela pode concentrar riquezas e que a construção de datasets está ignorando (e não raramente fomentando) problemas sociais.


Está vendo? Não se pode escrever nada sem pisar em ovos. Você acaba precisando escrever notas e mais notas para que grupos sociais distintos não entrem em modo bestial. O que não é uma grande novidade para o autor que vos escreve. Acostumei-me a receber comentários extremamente ofensivos, floods de comentários, toda vez que analisava um escritor ou uma escritora que desagradasse um(a) esquerdista ou um(a) direitista. Até que, por fim, eu desabilitasse eternamente os comentários do blogspot. A sorte é que esse blogspot é pra uso pessoal e eu não recebo remuneração alguma por meio dele.


Tudo isso me leva a seguinte questão: é insuportável não conseguir falar com ninguém. É insuportável ver como essa guerra cultural (subproduto da guerra fria civil), existe para levar a gente a brigas e mais brigas, sempre em uma espiral sem fim de radicalização e extremismo. O que estamos nos tornando? O essencial da sociedade democrática é que cada fragmento social aprenda com o outro. A esquerda aprende o centro e a direita. A direita aprende com a esquerda e o centro. O centro aprende com a direita e a esquerda. Em uma sociedade em que todos estão cerceados dentro das suas esferas discursivas, a dialogocidade democrática e, por fim, a dialética democrática que eleva a capacidade de raciocínio, torna-se impossível.


Eu precisava escrever isso. E esse livro tem a ver com tudo isso. Toda essa onda de ódio que há entre nós tem a ver com a ascensão cada vez mais espetacular de populistas ao lado de cenários cada vez mais constantes (e violentos) de guerra cultural e guerra fria civil. É preciso dizer que a guerra cultural é subproduto da guerra fria civil. Grupos lucram enormemente com a destruição do sentido compartilhado. Acontece que quanto menos lemos uns aos outros, mais a possibilidade de autocrítica, de percebermos a nós mesmos e de evoluirmos intelectualmente diminui.


Esse livro tem a ver com tudo isso. A seitização do debate público e de milhões de consciências não é um fenômeno singular. É algo que vem ocorrido no mundo inteiro. A forma com que isso vem ocorrido nos Estados Unidos é particularmente interessante, visto que os Estado Unidos é um espelho global. Uma das primeiras questões que o livro trata é: por qual razão parte da elite do Partido Republicano se afastou do Trump, mas a base permaneceu fiel a ele mesmo acreditando que ele é um sujeito desprezível?


— Partidários e Moderados:


Uma das principais diferenças entre partidários e moderados é que os partidários se importam menos em quebrar a normalidade democrática em prol das suas preferências políticas. Moderados, usualmente mais bem educados, preferem manter a normalidade do sistema.


A questão que me aparece é: o trumpismo é a destruição só do sistema? Como já sabemos, sobretudo após a tentativa de golpe bolsonarista, o populismo trumpista é um produto de exportação.


O trumpismo, e a guerra fria civil que data desde Reagan e do neoconservadorismo, leva a um estado de escalada retórica, de segregação informacional, de esgotamento mental e de suspeita permanente.


A guerra cultural leva a um estágio paranoico. Um estilo de escrita, uma vírgula, uma referência... tudo virou um sinal de tribalidade e identificação. Há, diante de nós, não um mundo em que temos conversas, mas um campo minado onde qualquer passo é um distinto risco de explosão.


Para vocês, quando foi a última vez que vimos um debate democrático? Temos, em todas as partes, um policiamento ideológico ostensivo. Cada vez mais, temos gente que caça resultados em vez de defenderem o processo. Se o processo de normalidade institucional não for favorável, pior para ele.



Temos atualmente dois tipos de movimentos. Os políticos de constituição e os políticos de causa.


1. Políticos de constituição:

Exemplo disso é/foi o movimento "Never Trumpers". São/foram políticos de constituição, valorizando as instituições, normas democrática, estabilidade do sistema e a coerência ideológica tradicional.


2. Políticos de causa:

Aqui está o combate eficaz mesmo que isso leve ao pisoteamento das regras. O que importa é a lealdade tribal e a sensação de vitória ou resistência que superam qualquer decoro.


— Formação X Partidarismo:


Uma boa formação garante múltiplos pontos de vista. Estar dentro de múltiplos pontos de vista garante uma visão mais cética e pragmática em relação a política. Isso é uma efetiva ferramenta desradicalizante seja para a direita, seja para a própria esquerda.


Essa questão aparecerá como central dentro da política americana e da nossa. Se os Estados Unidos dispuseram de uma direita fortemente formada, academicizida e institucionalizada... O Brasil contou com uma direita extremamente afastada da formação acadêmica, da formalização e da institucionalização. A resistência para com o bolsonarismo por parte dos conservadores brasileiros foi radicalmente menor do que a resistência dos conservadores americanos para com o trumpismo.


Não raro, o identitarismo trumpista convive "lado a lado" conservadores cultos do Hoover Institution. No Brasil, essa possibilidade é menor. Poucos conservadores, tal como o Luiz Felipe Pondé, apresentam as suas ressalvas ao bolsonarismo. Dentro dos Estados Unidos, existe uma ampla margem de conservadores cultos. No Brasil, as raízes identitárias e centros formativos alternativos predominam. Essa diferença sociológica entre conservadores americanos e brasileiros é gritante. Poucas análises séries surgiram a partir disso.


1) Caso americano:

O movimento "Never Trump" é fruto de uma infraestrutura conservadora robusta e institucionalizada. Institutos conservadores como Heritage Foundation, American Enterprise Instituto, Hoover Institution. Além de veículos de mídia de longa data como National Review e The Weekly Standard. Fora isso, existem universidades de elite com fortes correntes conservadoras. É por isso que Donald Trump encontrou oposição em círculos conservadores.


2) Caso brasileiro:

A direita brasileira é pós-institucional e anti-intelectual por origem. Ela se forma fora das instituições tradicionais. Sua formação vem de nichos da internet, de igrejas neopentecostais, de canais do YouTube e em vários discursos de guerra cultural. É por isso que Jair Messias Bolsonaro não encontrou muita oposição dentro dos círculos conservadores.


Um dos casos mais interessantes de direita que vem surgido é propriamente o Partido Missão,  que faz parte de uma rede de iniciativas como o MBL (Movimento Brasil Livre e Revista Valete). Esse consta com formação intelectual contínua, o que dá margem para uma direita ilustrada, institucionalizada e academicizada. Mas isso ainda é uma experiência incipiente no debate público brasileiro.


— Importantes Lições da Decadência Americana:


Dedico essa parte da análise para dar algumas brechas sobre como podemos agir perante a crise dos Estados Unidos. Aprender com outras nações é de suma importância para não cometermos os mesmos erros.


Muitas vezes eu escrevi que o brasileiro precisa criar um pensamento mais pragmático. Além de uma soberania pragmaticamente construída. Que não se definirá por um alinhamento pró-Estados Unidos, mas em uma mensuração do que é melhor para o Brasil a cada momento. Isso envolve uma ampla leitura, uma leitura bastante aberta, acerca da história do Brasil e a missão histórica do Brasil a cada momento. Esse tipo de pragmatismo requer um estudo sempre constante de novos e novos dados e formulação. Isso requer uma academicidade e institucionalidade.


A direita precisa parar de acreditar em uma abstração livre-mercadonista. Ela poderá encontrar bons ares no distributismo de Chesterton, no Red Tory (tradição inglesa e canadense), na American Compass (de tendência neohamiltoniana) e na Doutrina Social da Igreja Católica.


Uma das principais condições para ser vencedor no século XXI é a capacidade tecnológica. Muitos países atualmente correm atrás de melhorar os seus índices em STEM. STEM é uma sigla para Science (Ciência), Technology (Tecnologia), Engineering (Engenharia) e Mathematics (Matemática). Para aumentarmos isso, precisamos de investimento e aumento nos índices da educação pública. Isso requer o desenvolvimento de mais centros educacionais, além da atração de mais estrangeiros (seja para trabalho, seja para dar aula).


Uma direita que pura e simplesmente se define eternamente por desregulamentação, liberalização, PPP (Parceria Público Privada), Estado Mínimo e "combate forte ao crime organizado" (muitas vezes reduzida a matar agentes menores do crime) não será capaz de desenvolver o país.


O terceiro governo Lula apresenta importantes lições para o Brasil. Existem lados que estão sendo pouco olhados. Preciso dar uma breve "olhada" neles. Vou evitar informações que pouco se encaixem na conjuntura do texto ou que levem a polêmicas desnecessárias. Faço isso pelo simples fato que a educação vem sido secundarizada pela direita nacional.


- Recomendo que deem uma lida no G1 da Globo:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/27/lula-anuncia-criacao-de-duas-novas-universidades-federais-uma-voltada-a-indigenas-e-outra-a-formacao-esportiva.ghtml


- Além de informações diretas do governo:

https://www.gov.br/mec/pt-br/100-novos-ifs#:~:text=O%20governo%20federal%2C%20por%20meio,R$%202%2C5%20bilh%C3%B5es.


- A estimativa é que sejam lançadas:

1. 140 mil novas vagas;

2. 102 novos campi de Institutos Federais;

3. Duas novas universidades federais;

4. Dez novos campi de universidades federais.


Apesar dos Estados Unidos apresentarem uma boa educação superior, ele apresenta ao mesmo tempo altos custos (para obter essa educação) que podem pouco a pouco minar a capacidade do país em obter uma população educada. A China, tendo um modelo mais focado, apresenta uma expansão do ensino público ao lado de baixos custos de aprendizagem. Fora isso, os Estados Unidos estão perdendo a sua capacidade de atrair "capital humano" para o país devido a sua radicalização anti-migratória. Essa radicalização anti-migatória vem acompanhada da teoria conspiratória (e a explosão de teorias conspiratórias devido a acessibilidade da internet) chamada "Great Replacement".


Outra crise que os Estados Unidos vêm encarado é a diminuição no seu índice de leitura. Como pode ser lida aqui:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2025/09/whats-driving-decline-in-u-s-literacy-rates/


Se os Estados Unidos enfrentam um declínio na sua educação devida a alta nos preços das faculdades além do declínio na leitura, o Brasil pode e deve se contrapor a tendência decadente dos Estados Unidos. O investimento público na educação — deixando-a gratuita ao mesmo tempo que fornece oportunidades de trabalho —, um ampliamente da qualidade de vida e a atração para imigrantes deve ser um política pública constante. O Brasil, como membro dos BRICS, pode atrair várias pessoas que fazem parte dele em parcerias estratégicas.


Enquanto a luta dos "Never Trumpers" foi em preservar as instituições, a luta dos brasileiros será em construir uma política mais institucionalizada e educada para evitar extremos.


Aqui temos dados mais revelados a respeito da STEM no Brasil:

https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html


O Brasil passa por diferentes questões. Em 2022, a população de evangélicos triplicou, atingindo 26,9% da população. Ao mesmo tempo, a população católica foi de 83% (em 2000) para 56,7% em 2022. O catolicismo é uma fé historicamente institucionalizada e doutrinariamente estruturada. Os evangélicos têm crescido por formas de mídia (como TV e plataformas digitais) que são diferentes das instituições acadêmicas tradicionais. Não importa qual seja a religião ou doutrina cristã dessas pessoas, precisamos de uma população intelectualizada e capaz de encarar de frente os desafios do século XXI.


É evidente que "evangélico = anti-intelectual" não é a fórmula aqui. O crescimento evangélico no Brasil se deu majoritariamente por uma vida midiática e carismática. Temos exemplos de pensamento evangélico ilustrado no evangelicalismo reformado com Augustus Nicodemus e o Instituto Fides, esses apresentam um pensamento filosófico, político e teológico sofisticado. Creio que grande parte do evangelicalismo não ilustrado, mais carismático e midiático, se deu pelo fato de que há ainda um abandono muito grande de políticas educacionais para o povo.


Você pode ler mais dos dados religiosos aqui:

https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml


— Perdidos no Mar Revolto do Populismo:


Creio que o grande problema atual do nosso sistema é a possibilidade de corrosão institucional.


Anteriormente eu acreditava nas instituições como algo permanentemente estável, sem duvidar muito da sua salubridade. Nasci e cresci em um período histórico do meu país em que tudo funcionava aparentemente bem a nível institucional. É evidente que tínhamos altos problemas: desigualdades regionais grosseiras, uma população abandonada sem educação, taxas de analfabetismo e por aí vai. O tempo passou, algumas políticas sociais de orientação mais social-democrata foram passando.


A gente acreditava que um governo seguiria outro, dentro de uma normalidade transacional. Se um plano falhasse, outro logo assumiria o seu lugar. Sim, corrupção sempre teve e a gente sabia disso. De qualquer modo, podíamos ver tudo ser desenvolvido de uma forma razoavelmente estável. Creio que o período essencial de alteração começou quando Aécio Neves perdeu a eleição. Boatos e afirmações sobre fraudes nas urnas começaram a pipocar. Muitas pessoas não acreditavam nas urnas naquele período, sejam elas de esquerda ou de direita.


O antipetismo cresceu radicalmente, junto a moda do politicamente incorreto. Vimos pouco a pouco o politicamente incorreto se tornar politicamente escroto. Do mesmo modo, figuras que desafiavam constantemente o comportamento esperado cresciam. Jair Messias Bolsonaro ganhava atenção pelo fato de que crescia, em todo Brasil, uma postura "anti-especialista".


É válido dizer que existiam várias frentes politicamente incorretas. De um lado, eram os devoradores de livros e de outro lado eram pessoas que simplesmente odiavam qualquer sinal de cultura. Do mesmo caldo, surgiram sopas diferentes: conservadores, liberais, sociais democratas, alt-right, tradicionalistas, libertários, reacionários e anarco-capitalistas. A pergunta central: se para questionarmos a bibliografia da esquerda tivemos que relativizar o racismo, a LGBTfobia e tantas e tantas outras coisas mais, sem colocar um discernimento claro a respeito disso, será que não fomos minimamente responsáveis por abrir caminho ao nacionalismo branco, ao neonazismo, ao neofascismo e a alt-right?


Dentro de um contexto em que existe uma guerra cultural graças a uma guerra fria civil e em que especialistas são tidos como mais à esquerda, o desenvolvimento de uma atitude mais anti-especialista é natural. Os especialistas são tidos como inimigos naturais. Até mesmo pessoas de posicionamento mais pragmático e cético, tal como vemos com David Frum, Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens.


Direita puritana moral > Contra-cultura de esquerda > esquerda contra-cultural institucionalizada > direita politicamente incorreta > esquerda institucionalizada X direita em institucionalização (e se tornando woke) > esquerda politicamente incorreta (carregando, eles ainda não perceberam isso).


O que vemos hoje é, essencialmente, a ascensão de uma direita woke que se comporta contra certos padrões políticos estabelecidos pelo progressismo de uma forma a retornar aos males de outrora. Se dados aspectos políticos são vistos como excessivos, eles são contrapostos com o retorno reacionário aos males de outrora (muitas vezes se utilizando de humor para tal). Logo a direita woke vem se especializado em ser LGBTfóbica, racista, xenofóbica e tantas outras coisas mais para atenuar o excesso dos movimentos que não gosta. Porém quando percebemos que a direita soube, no passado, se aproveitar da institucionalização da moralidade progressista como norma, criando o politicamente incorreto, a esquerda logo perceberá que será a sua vez de ser politicamente incorreta e apontar, com toda razão do mundo, que a direita atual é proibicionista, invertendo os papéis e dinâmica histórica.


O grande problema, na análise cultural e social contemporânea, é a ausência de leituras de múltiplos grupos através de uma imersão antropológica dentro deles. Além de uma leitura plurissistemática e plurideológica. Se isso for feito, as dinâmicas culturais se tornam mais compreensíveis e as fraquezas internas se tornam mais visualizáveis. A seitização do debate faz com que os oponentes sejam mais fracos em suas posições dentro da guerra política.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

NGL #54 — A política inteira deve ser reimaginada?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu preciso explicar alguns pontos para você entender onde eu quero chegar.


— O que acontece quando personalidades de dois grupos opostos debatem entre si?


Vamos pensar em um debate entre um comunista e um liberal. A intenção de cada um dos debatentes é:

A- Comunista: provar que o comunismo tem razão;

B- Liberal: provar que o liberalismo tem razão.


O ponto deles é que eles pecisam provar de todos os modos que a ideologia deles têm razão. Eles não vão parar por um momento e dizer:

- Estou vendo aqui que o liberalismo/comunismo tem razão nesse ponto determinado.


Ou seja, a procura pela verdade ou pelo método mais efetivo não importando onde isso esteja não é o ponto. Não é uma cooperação para se chegar as melhores ideias, mas sim um ponto em que duas doutrinas são debatidas de um ponto de vista mais teológico do que filosófico. Os dois não estão tentando analisar ponto por ponto e chegar a uma conclusão com o melhor ponto de cada sistema, mas sim uma justificação doutrinária de seus sistemas — esses vão ser justificados por inteiro.


Fala-se de "diálogo" e "debate", mas que "diálogo" é esse onde nenhuma ideia é primeiramente analisada, comparada com outras e depois vista como circunstancialmente aceitável em alguma conjuntura? O diálogo sequer é aceito como possibilidade, como troca, como feedback. Quando nós, em nossa modernidade, dizemos que os medievais eram errados visto que os debates deles estavam tentando justificar a sua doutrina teológica a todo custo, caímos na hipocrisia pelo fato de que somos vários grupos distintos tentando justificar as nossas doutrinas ideológicas a todo custo.


Ou seja, fala-se em diálogo quando na verdade vivemos em uma era pós-dialógica. Uma das principais ideias que norteiam esse meu modo de ver o mundo é o que vem sido chamado de "guerra fria civil", ou seja, a noção de que existem populações radicalmente divididas — culturalmente, ideologicamente, etc — sem entrar em uma guerra civil de fato.


— Se o debate e o diálogo sincero não mais existe, qual deve ser o foco?


Você já deve saber o jogo de adição e subtração da política moderna:

Focou em brancos = - pessoas de cor

Focou em pessoas de cor = - pessoas brancas

Focou em LGBTs = - pessoas heterossexuais

Focou em pessoas heterossexuais = - pessoas LGBTs

Focou em homens = - mulheres

Focou em mulheres = -homens


Quando você pensa no que o esoterismo channer esteve fazendo em todos esses anos consecutivos, na parte em que ele é mais técnico, vemos uma inversão em que os arquétipos e a memética superam os aspectos mais propriamente ideológicos.


Repare bem nas técnicas de Q. (QAnon) quando não olhamos para o conteúdo das suas teorias da conspiração:

"Era o dia 28 de Outubro de 2017. Alguém deveria estar pensando o que venceria: a evidência ou a emoção? De qualquer modo, esse alguém fez uma aposta. A sua aposta continha uma mensagem. Essa mensagem continha as seguintes características:

1. Sem previsões específicas;

2. Sem fontes verificáveis;

3. Deliberadamente vaga;

4. Deliberadamente aberta a interpretação.

As pessoas se perguntavam o que era aquilo. Seria aquela postagem uma espécie de informação? Não, certamente não era. Estava mais para um quebra-cabeça ou para um drop críptico. A arte de decoficar aquilo, aquela estranha mensagem, que era o produto. Decifrar a mensagem dava aos decifradores a posição de "insiders"."

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/01/reflexoes-esochannealogicas-1.html


Ou nessa parte aqui:

"Nível 4: Noumenônica

Teórico: Esokant (nível abismo)

Nome: Esochannealogia da Guerra Noumenônica

Resumo: controlar os alicerces invisíveis da realidade percebida.

Armas: epistemologia, modelos cognitivos, arquitetura de IA.

Nível 3: Cênica

Teórico: Cadáver Minimal (nível abismo) 

Nome: Esochannealogia da Guerra Cênica

Resumo: treinar o olhar do espectador para ver a encenação, não os atores.

Armas: frameworks, desmontagem, análise, performance.

Nível 2: Alegórica

Teórico: Saint Obamas Momjeans (nível abismo)

Nome: Esochannealogia da Guerra Alegórica

Objetivo: fornecer significado transcendente e coesão tribal.

Armas: arquétipos, divindades sincréticas, mitologia.

Nível 1: Conspiratória

Teórico: QAnon (nível abismo)

Nome: Esochannealogia da Guerra Conspiratória

Objetivo: mobilizar para ação no mundo real.

Armas: teorias da conspiração, drops crípticos, comunidade"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/reflexoes-esochannealogicas-6-academico.html?m=0


Ou quando eu falo sobre como a comunidade channer criou o Pizzagate:

"Então veja:

PISAP (Pesquisa, Interpretação, Solicitação, Arquivamento, Publicação) + Visão Panorâmica acima da particular + Acumulação do Conhecimento + Apelo Emocional = Epistemologia da Pós-Verdade"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-post-truth-protest-de.html?m=1


Ou a descrição das sete máscaras a partir de arquétipos e não de ideias mais ideológicas:

"Os Sete Arquétipos da Elite Abyss


Os Sete Antipilares Arquetípicos da esochannealogia são:


》A Máscara da Neossistemática (O Arquiteto da Realidade)


Função Arquetípica: a capacidade fundamental de criação e inovação perpétua de técnicas, sistemas e “preenchimentos ficcionais”. É a força motriz por trás da evolução da esochannealogia.



》A Máscara do Semeador do Caos (O Agente da Entropia Semiótica)


Função Arquetípica: a manipulação direta do ambiente informacional para introduzir ruído, ambiguidade e desorientação. Seu objetivo é quebrar a clareza da comunicação e a lógica linear, gerando entropia cognitiva.


》A Máscara do Engenheiro da Crença (O Forjador da Fé Coletiva)


Função Arquetípica: a arte de construir narrativas (ficcionais ou não) tão convincentes e ressonantes que elas se solidificam como “realidades” na mente de grandes populações, inspirando fé e ação.


》A Máscara do Desconstrutor Semiológico (O Erodidor de Sentido Compartilhado)


Função Arquetípica: a capacidade de desmontar e subverter as estruturas simbólicas, os valores e os significados que sustentam a coesão social e a percepção comum da realidade, levando a “colapsos semiológicos”.


》A Máscara do Vidente do Abismo (O Oráculo dos Padrões Ocultos)


Função Arquetípica: o poder de observação e análise profunda, capaz de discernir padrões, tendências e as leis ocultas do “sistema” mesmo em meio ao caos aparente, prevendo e orientando a manipulação futura.


》A Máscara do Espelho Paradoxal (O Mestre da Contradição e Integração)


Função Arquetípica: a habilidade de operar unindo opostos e de usar as contradições intrínsecas da realidade e dos oponentes em seu próprio benefício. Transforma a oposição em combustível para o sistema.


》A Máscara do Golem Consciente (A Manifestação da Magolítica)


Função Arquetípica: a encarnação máxima da esochannealogia. Representa o esochanner que se torna uma extensão consciente e singular do próprio sistema, cuja existência e “obra” são atos de “magia channer suprema” que afetam diretamente a realidade. É a fusão completa da subjetividade com a construção intelectual.


Essas Sete (7) Máscaras representariam os arquétipos fundamentais que, juntos, compõem a totalidade do poder e das operações da esochannealogia. Qualquer esochanner, ao atingir o grau esochannealógico, tenderia a se alinhar ou a sintetizar uma ou mais dessas abordagens arquetípicas"

https://medium.com/@cadaverminimal/o-paradoxo-da-elite-abyss-special-chapter-f97c1fb4a09d


Em outras palavras, quando o memético, o simbólico, o arquétipo, o mitológico substituem o conteúdo ideológico, os grupos afetados se tornam potencialmente maiores. A qualidade de um meme está em sua capacidade de reprodução, isto é, quanto maior for reprodutibilidade de algo, maior é a sua força memética.


Você perceberá muito isso nesse trecho de outro insider club:

"2- Eu não darei solução alguma e nem condenarei teoria conspiratória alguma, em vez disso, tentarei compreender quais foram as técnicas utilizadas pelos os mais diversos atores e farei alguma nota a respeito dessas técnicas.

Você percebeu que eu sequer me importo para o conteúdo da conspiração em si e qual é o seu uso político? O que me interessa é perceber tecnicamente a teoria conspiratória e compreender tecnicamente o que cada ator dentro desse contexto fez. Ou seja, o que me importa é técnica. Se Q. disse que Trump ou o Biden são os salvadores do mundo, pouco me importa.

É por isso que eu fui desenvolvendo minhas próprias ferramentas de guerra narrativa, psicológica, memética, conspiratória, alegórica, metapolítica, noumenônica e por aí vai. A minha questão está centrada nas artes da guerra da mente e não em uma doutrina filosófica, política, econômica ou cultural"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/ngl-45-juventude-trabalhista-e-leandro.html?m=1


A maioria dos intelectuais brasileiros são ideologicamente motivados. Isto é, eles querem fazer com que você acredite no corpo doutrinário que eles acreditam. O que eu quero é transcender a questão ideológica e doutrinária a partir da memética, do arquétipo, da mitologia, da simbologia e dentre outros fatores. Eu não tentaria colocar uma ideologia visto que sei que vivemos em uma época pós-dialógica. Se eu sei que meu esforço seria inútil, por qual razão eu me moveria para isso?


Se você olhar uma análise recente minha, verá que eu tenho trabalho muito mais com a teoria mágica da política:

"Como isso é possível? Se pensarmos bem, a parte de nós que é racional é a parte menos desenvolvida e recente de nossa mente. A grande parte ainda é dominada a linguagem do mito e do símbolo. É possível influenciar essa parte. Por exemplo, quando pensamos no slogan "MAGA" (Make America Great Again), não temos uma frase que signifique alguma coisa exata. A frase apenas diz: "Fazer a América Grande De Novo". Essa frase poderia ser um slogan até do Partido Democrata. Essa frase não foi feita para falar com o racional, mas com o imaginário afetivo"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-king-in-orange-de-john.html?m=1


Conforme eu ia analisando múltiplas escolas de pensamento e percebendo que estávamos em um período pós-dialógico e de guerra fria civil, comecei a criar outras ideias. Vi que a eficiência política não estava muito condicionada em aprender uma "boa escola de pensamento" e ensiná-la para as pessoas. Foi isso que me levou a escrever isso:

"Política pra gado:

- Figurinhas políticas pra quem não é inteligente o suficiente para estudar uma escola de pensamento.

Aqui estão os entusiastas que tratam celebridades pops da política como se fossem cantoras de música pop.

Política idealista:

- Escolas de pensamento que nunca se efetivam 100% na realidade. Debates pautados em vieses de confirmação onde a escola predileta é tido como santa e a escola de pensamento rival é tida como demoníaca.

Aqui estão as pessoas que acreditam piamente em uma escola de pensamento, sendo incapazes de fazerem sínteses de múltiplas escolas de pensamento, levando a uma auto-limitação intelectual grosseira.

Política pragmática:

- Estuda diversas escolas de pensamento e pensa num modelo .

Aqui estão aqueles que realmente deveriam governar e também a forma com que as pessoas deveriam estudar política, visto que só estes são capazes de gerar boas ideias, baseados no ceticismo e na prudência, tendo um experimentalismo comedido pela fusão de múltiplas ideias sintéticas. Entram aqui pessoas ilustres como Deng Xiaoping e Alexander Hamilton.

Política real:

- Psyops, guerra informacional, memética, guerra cognitiva.

Aqui está como a política realmente funciona. Uma permanente guerra de narrativas na qual várias mensagens são estudadas para ter efeito narrativamente positivo"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/11/memoria-cadaverica-29-arte-politica.html?m=0


O que eu estou dizendo é que a CIA, a FSB (KGB), a Glavset, dentre outras, são formas de fazer política infinitamente mais eficientes na condição atual do que o meio pelo qual a política é atualmente feita. Em outras palavras, aquilo que chamam de psyop (operação psicológica), psywar (guerra psicológica), conspiracy warfare (guerra conspiratória), narrative warfare (guerra narrativa), dentre tantas outras coisas, é o meio mais eficaz. Visto que isso trabalhará mais com a psicologia das massas e com engenharia social do que um conteúdo ideológico em si. Ou seja, há em primeiro lugar a primazia da manipulação psicológica (lembre-se que mágica em esochannealogia é "manipulação"). E essa definição também é encontrada no livro "The King in Orange: The Magical and Occult Roots of Political Power" de John Michael Greer. O grupo que aprender, dominar e for eficaz nesse tipo de ação e de conhecimento, será extremamente eficaz na política do Século XXI.